IRRIGAÇÃO NA CULTURA DA PUPUNHA
NO NOROESTE PAULISTA
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Fernando Braz Tangerino Hernandez
UNESP - Ilha Solteira / Área de Hidráulica e Irrigação

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1. INTRODUÇÃO

Antes da década de 60, o Estado se São Paulo era o principal produtor brasileiro de palmito, sendo extraído da palmeira juçara (Euterpe edulis Mart.). Por volta de 1980 ocorreu a primeira crise na exploração extrativista do palmito. Rapidamente as principais empresas processadoras de palmito se mudaram para o Estado do Pará, então com extensas reservas de açaizeiros (Euterpe oleracea Mart.). Atualmente, este Estado é o primeiro produtor, com cerca de 92% da produção brasileira de palmito, sendo seguido pelo Estado de São Paulo, com apenas 4% (BOVI, 1997).
De acordo com FLORI e D'OLIVEIRA (1995) a pupunha (Bactris gasipaes H.B.K.) se apresenta hoje como a melhor alternativa de cultivo para a produção racional de palmito, tendo em vista as suas qualidades agronômicas, industriais e comerciais. Essa palmeira apresenta um bom perfilhamento, precocidade de colheita, boa produtividade e rusticidade. Nos últimos anos, com a seleção e produção de plantas sem espinhos, consolidou-se mais uma vantagem desta espécie. O palmito obtido da pupunha apresenta a característica de não sofrer escurecimento após o descascamento, que é comum tanto no palmito açaí, como no juçara.

Introduzido em Ilha Solteira através da Área de Hidráulica e Irrigação da Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira - UNESP, em novembro de 1994, a partir de mudas provenientes da UNESP - Jaboticabal, o comportamento agronômico da cultura na região frente à irrigação, adubação e número de perfilhos ainda gera dúvidas. Observações em determinadas regiões, nem sempre são válidas para outras, de clima e solos diferentes.

BOVI (1997), uma das pioneiras no estudo de palmeiras, lembra, que como toda a planta em vias de se tornar um cultivo, ainda existe uma série de informações necessárias para ser fornecida aos agricultores interessados em seu plantio. Técnicas de plantio, espaçamento, adubação, manejo de perfilhos e colheita devem ser desenvolvidas na região de plantio dado as diferentes variantes edafoclimáticas. Nesse sentido, inexistem estudos de qualquer natureza com a cultura na região Noroeste Paulista, apesar de já se iniciarem cultivos na região.

Parece consenso de que nas condições climáticas da região, cultivos sem o uso de irrigação podem ter sua rentabilidade comprometida. BOVI (1997) coloca como ideal para a cultura, regiões de clima quente e úmido, com temperatura média anual de 220 C e precipitação acima de 1600 mm por ano e bem distribuída. O Noroeste Paulista atende as exigências de temperatura, porém as chuvas deverão ser complementadas pelas irrigações.

 
 

2. MATERIAL E MÉTODOS

Os dados a serem apresentados são resultados de pesquisas financiadas pela FAPESP (Processos 97/07647-5 e 97/07668-2) e estão instaladas na Área Experimental de Agricultura Irrigada da Fazenda de Ensino e Pesquisa/SP da Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira - UNESP, com coordenadas geográfica 20o 22' de Latitude Sul e 51o 22' de Longitude Oeste e com altitude média de 335 m. O clima da região, segundo a classificação de Köppen, é do tipo Aw, definido como tropical úmido com estação chuvosa no verão e seca no inverno, apresentando temperatura média anual de 24,5oC, precipitação média anual de 1.232 mm e uma umidade relativa média anual de 64,8% (HERNANDEZ et al, 1995).
O plantio das mudas foi feito em 21 de novembro de 1994 em um espaçamento de 2,0 x 1,0 metros (entre linhas e entre plantas, respectivamente). Inicialmente (do plantio até 21 de novembro de 1995) as plantas foram cultivadas em regime de sequeiro, visando tirar informações sobre o desempenho da cultura sob essas condições. O resultado foi um alto índice de mortes das plantas, o que deu a certeza da necessidade da irrigação para um cultivo de alta rentabilidade na região, sob condições de alta evapotranspiração e solos com baixa capacidade de retenção de água. A partir de dezembro de 1995 a irrigação passou a ser feita por gotejamento, com 2 gotejadores autocompensáveis (de 2,3 litros/hora) por planta, espaçados em 1,0 metro entre si e posicionados à 0,5 metro do pé da planta.

Os tratamentos implantados foram baseados na reposição da evaporação do Tanque Classe A (ECA) e foram assim estabelecidos:

. Tratamento 1: sem irrigação; . Tratamento 2: 50% ECA;

. Tratamento 3: 75% ECA; . Tratamento 4: 100% ECA;

. Tratamento 5: 125% ECA; . Tratamento 6: 150% ECA;
As irrigações são diárias e o tempo de irrigação calculado segundo a expressão (VERMEIREN e JOBLING, 1997):

onde:

TI = tempo de irrigação, horas; E = espaçamento entre linhas, metros;
e = espaçamento entre plantas, metros; ECA = evaporação do Tanque Classe A, mm;

Kr = coeficiente de cobertura do solo; q = vazão do emissor, litros/hora;

n = número de emissores por planta; K = tratamento aplicado (0, 50, 75, 100, 125 e 150%).

Inicialmente se utilizou um Kr de 0,3 e somente em 01 de julho de 1996, este coeficiente atingiu o valor de 0,9, sendo este o utilizado atualmente, pois as plantas já se encontram em estágio adulto.
 
 

3. RESULTADOS OBTIDOS

Sem irrigação, a mortandade de plantas é alta, e o início da produção fica postergado, significando prejuízo duplo, pois se perde o dinheiro investido na muda e seu plantio, e por outro lado, fica-se sem receita, pois a colheita inicial demora a se iniciar.


 
QUADRO 1 - Porcentagem de plantas mortas e colhidas no primeiro corte (14/04/97) aos 29 meses após o plantio.
% de Plantas Mortas % de Corte Inicial
Tratamento
A
B
C
D
Média
A
B
C
D
Média
SI
27,3
54,5
36,4
33,3
37,9
0,0
0,0
28,6
0,0
7,2
50% ECA
27,3
27,3
0,0
16,7
17,8
25,0
0,0
18,2
0,0
10,8
75% ECA
9,1
18,2
9,1
25,0
15,4
10,0
22,2
30,0
44,4
26,7
ECA
18,2
36,4
18,2
16,7
22,4
33,3
42,9
66,7
20,0
40,7
125% ECA
18,2
9,1
0,0
25,0
13,1
88,9
70,0
36,4
11,1
51,6
150% ECA
9,1
27,3
0,0
16,7
13,3
20,0
25,0
81,8
40,0
41,7

 
QUADRO 2 - Porcentagem de plantas colhidas no ano de 1998.
Tratamento
A
B
C
D
Média
SI
25,0
0,0
228,7
75,0
82,2
50% ECA
212,5
112,5
190,8
140,0
164,0
75% ECA
160,0
177,8
182,2
122,2
160,6
ECA
288,9
298,0
266,7
150,0
250,9
125% ECA
200,0
140,0
300,0
111,1
187,8
150% ECA
270,0
250,0
227,3
160,0
226,8
.
 
QUADRO 3 - Produtividade média (t/ha) no ano de 1997.
Tratamento
A
B
C
D
Média
SI
0,36
0,00
1,66
0,59
0,65
50% ECA
2,24
0,95
2,26
1,38
1,71
75% ECA
1,88
1,69
3,30
2,97
2,46
ECA
2,84
1,81
2,89
2,33
2,47
125% ECA
2,77
2,90
2,23
1,60
2,38
150% ECA
2,14
1,93
3,34
3,17
2,65

 
QUADRO 4- Produtividade média (t/ha) no ano de 1998.
Tratamento
A
B
C
D
Média
SI
0,26
0,00
3,21
0,86
1,08
50% ECA
3,22
1,71
2,99
1,64
2,39
75% ECA
2,64
2,39
2,59
1,89
2,38
ECA
4,01
3,89
4,37
2,17
3,61
125% ECA
2,78
2,22
4,41
1,29
2,67
150% ECA
4,56
3,94
3,01
2,36
3,47

 
QUADRO 5 - Número de toletes tipo exportação por planta no ano de 1997.
Tratamento
1a colheita
2a colheita
3a colheita
média
SI
2,50
1,47
1,25
1,61
50% ECA
2,75
1,86
1,75
1,98
75% ECA
2,29
1,80
2,11
2,09
ECA
2,79
1,93
1,82
2,18
125% ECA
2,68
1,89
1,71
2,11
150% ECA
2,90
1,74
1,89
2,18

 
QUADRO 6 - Número de toletes tipo exportação e resíduos médio total (kg) por planta no ano de 1998.
Tratamento
4a colheita
5 a colheita
6 a colheita
7 a colheita
média
SI
2,00
1,50
2,40
1,68
1,73
50% ECA
1,44
2,50
2,62
2,07
2,20
75% ECA
1,92
1,75
2,73
2,23
2,16
ECA
2,13
1,90
2,02
2,21
2,06
125% ECA
1,90
2,05
2,37
2,09
2,11
150% ECA
1,59
1,63
2,31
2,25
1,94
Resíduos médio total (kg) por planta no ano de 1998
Tratamento
FOLHA
CAULE
TOTAL
SI
2,23
5,69
7,92
50% ECA
3,03
7,00
10,03
75% ECA
3,39
7,22
10,61
ECA
3,20
6,43
9,63
125% ECA
3,36
6,76
10,12
150% ECA
3,19
6,93
10,12

 
QUADRO 7 - Volume de água recebido pelas plantas (litros/planta.dia).
Mês
SI
50% ECA
75% ECA
ECA
125% ECA
150% ECA
Jan/97
22,3
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
Fev/97
7,5
3,8
5,6
7,5
9,4
11,0
Mar/97
11,0
3,1
4,5
6,0
7,5
8,6
Abr/97
3,9
2,9
4,6
6,1
7,6
8,9
Mai/97
3,1
3,0
4,7
6,3
8,0
9,2
Jun/97
13,7
1,4
2,2
2,9
3,6
4,3
Jul/97
0,0
4,7
7,0
9,3
11,7
13,5
Ago/97
0,0
6,3
9,4
12,6
15,7
18,2
Set/97
1,0
6,8
10,1
13,5
16,9
19,6
Out/97
9,5
3,9
5,6
7,6
9,7
11,2
Nov/97
19,6
1,6
2,3
3,2
4,0
4,7
Dez/97
8,4
2,3
3,5
4,6
5,8
6,8
Média/Total
8,3/3029,5
3,3/1204,5
5,0/1825,0
6,0/2190,0
8,3/3029,5
9,7/3525,5
Jan/98
8,3
4,3
6,5
8,3
10,8
12,5
Fev/98
15,4
0,0
0,0
0,0
0,0
0,0
Mar/98
13,8
0,6
0,9
1,2
1,4
1,7
Abr/98
12,2
1,3
1,9
2,6
3,3
3,8
Mai/98
5,4
3,1
4,7
6,4
7,9
9,1
Jun/98
0,1
3,8
5,7
7,9
9,7
11,2
Jul/98
0,2
4,7
7,1
9,7
12,1
13,9
Ago/98
6,3
2,7
4,0
5,5
6,8
7,9
Set/98
6,0
3,0
4,4
6,1
7,7
8,6
Out/98
9,9
2,2
3,3
4,5
5,6
6,4
Nov/98
2,2
3,6
5,4
7,4
9,2
10,6
Dez/98
20,6
1,2
1,8
2,5
3,1
3,5
Média/Total
8,3/3029,5
2,6/949,0
3,8/1387,0
5,2/1898,0
6,5/2372,5
7,5/2737,5
* Os valores correspondentes ao tratamento SI (sem irrigação) representam somente a precipitação proveniente das chuvas, que em 1997 foi de 1519 mm, em 1998 foram de 1523,9, enquanto que nos demais tratamentos expressam somente a água aplicada através do sistema de irrigação.

 
4. CONCLUSÕES PARCIAIS

Verifica-se que sem o uso da irrigação, o cultivo da pupunha para a região de Ilha Solteira se torna praticamente inviável para uma exploração comercial, tendo em vista os resultados obtidos quanto a produtividade por planta, por hectare, número de plantas cortadas e plantas mortas;
Até o momento, os melhores resultados agronômicos têm sido obtidos com os tratamento 3 (75% ECA) em 1997 e o tratamento 4 (100% ECA) em 1998;

Para o primeiro ano de produção recomenda-se a lâmina de 75% ECA, o que nos fornece um Kc de 1,00 e para o segundo ano de produção, onde praticamente todas as plantas estão desenvolvidas e também há a manutenção dos perfilhos, o tratamento que melhor se desenvolveu foi o 4 (100% ECA), nos fornecendo um Kc de 1,33, considerando o Kp médio da região de 0,75, ou seja, ventos fracos (menores que 175 km/dia e umidade relativa entre 40 e 70%;

Os dados obtidos até agora deixa claro a importância de estudos a longo prazo em culturas perenes, como é o caso da pupunha.

 
 

5. LITERATURA RECOMENDADA

As publicações abaixo podem servir de referência ao estudo da cultura. Também, recomenda-se a consulta à PupunhaNet (http://www.inpa.gov.br/pupunha/), espaço na Internet disponibilizado pelo INPA, onde se discute e se obtém as mais variadas informações relativa à cultura da pupunha.

BOVI, M.L.A. Palmito pupunha - Informações básicas para o cultivo. Campinas, Instituto Agronômico,1997. 11p. (Boletim Técnico, IAC)
BOVI, M.L.A. Palmito pupunha: informações básicas para o cultivo. Campinas: Instituto Agronômico, 1998. 55p. (Boletim Técnico, IAC, 173).

CLEMENT, C. R., CHAVEZ, W. B. F., GOMES, J. B. M. Considerações sobre a pupunha. In: PALMITO ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES, 1, 1987, Curitiba. Anais... Curitiba: EMBRAPA, 1987. p. 225-48.

CLEMENT, C.R., BOVI, M.L.A. Padronização de medidas de crescimento e produção em experimentos com pupunheiras para palmito. A revista da pupunha. www.inpa.gov.br/pupunha/artigos/crc3.html. 1999.

FERREIRA, S.A.N. A cultura da pupunheira. Cruz das Almas, Revista Brasileira de Fruticultura, v. 9, p. 23-8, 1987.

FERREIRA, V.L.P. et al. Composição química e curvas de titulação de acidez do palmito pupunha (Bactris gasipaes H.B.K.) de diversas localidades. Campinas, Coletânea do Instituto de Tecnologia de Alimentos, v.20, p. 96-104, 1990.

FLORI, J.E., D'OLIVEIRA, L.O.B. O cultivo da pupunha sob irrigação no semi-árido do nordeste brasileiro. Petrolina, EMBRAPA - CPTSA, 1995, 3p. (Comunicado Técnico, 62).

FURIA, L.R.R., FURIA, T.R.C. Pupunha: Uma Alternativa Concreta. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE FRUTICULTURA IRRIGADA, 1, 1998, Jales. Anais... Ilha Solteira:(1998) UNESP/FEIS- Área de Hidráulica e Irrigação, p.44-6.

GOMES, J.B.M., MENEZES, J.M.T., VIANA FILHO, P. Efeitos de níveis de adubação e espaçamento na produção de palmito de pupunheira (Bactris gasipaes H. B. K.) em solo de baixa fertilidade na região de Ouro Preto D'Oeste - RO. In: PALMITO ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES, 1, 1987, Curitiba. Anais...Curitiba: EMBRAPA, 1987.p. 261-6.

HERNANDEZ, F.B.T., LEMOS FILHO, M.A.F., BUZETTI, S. Software HIDRISA e o balanço hídrico de Ilha Solteira. Ilha Solteira, UNESP / FEIS / Área de Hidráulica e Irrigação, 1995. 45p. (UNESP / FEIS / Área de Hidráulica e Irrigação. Série Irrigação, 1).

HERNANDEZ, F.B.T. Agricultura Irrigada e atuação da UNESP no Oeste Paulista. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE FRUTICULTURA IRRIGADA, 1, 1998, Jales. Anais... Ilha Solteira: (1998) UNESP/FEIS- Área de Hidráulica e Irrigação, p.05-8.

RAMOS, A. Desenvolvimento vegetativo da pupunheira (Bactris gasipaes Kunth) irrigada por gotejamento em função de diferentes níveis de depleção de água no solo. Piracicaba,1998. 66p. Dissertação (Mestrado em Agronomia)-Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Universidade do Estado de São Paulo.

VERMEIREN, G.A., JOBLING, G.A. Irrigação localizada. Campina Grande, UFPB, 1997, 184p. (Estudos FAO: Irrigação e Drenagem, 36 - Tradução de GHEYI, H.R., DAMASCENO, F.A.V., SILVA Jr., L.G.A., MEDEIROS, J.F.).Palestra proferida em 29 de maio de 199, no SIRAN. Araçatuba - SP


 
 
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