25 ERROS FATAIS NO CURRÍCULO

Tatiana Diniz


Se o currículo é a "chave" que detém a possibilidade de introduzir um profissional em uma empresa, apresentá-lo com erros pode ser o atalho mais curto para fechar as portas no mercado.
Mas não falta quem cometa deslizes na hora de elaborar o documento, reduzindo suas chances de recolocação. A Folha ouviu dez empresas e consultorias de recursos humanos atuantes em São Paulo para chegar a uma lista com 25 erros comuns nos currículos.
A "tendência" hoje é a compactação exagerada, novo inimigo dos selecionadores -que surgiu como uma espécie de resposta ao combate incisivo aos currículos longos nos últimos anos. Com o fenômeno, os candidatos têm dado "um jeitinho" de concentrar tudo numa página, ainda que omitam informações importantes ou desrespeitem a boa aparência.
"Chegar ao tamanho ideal tem a ver com bom senso. Não pode ser tão longo que canse nem pode omitir dados importantes para o recrutamento", diz a consultora Cristiane Gonçalves, da KPMG.
O economista Paulo Bomtempo, 43, ampliou o seu currículo, que era "pontual demais". "O modelo mais explicativo deu certo. As entrevistas aumentaram, e estou mais relaxado nelas, pois o recrutador sabe mais sobre mim."

1 - Fotos inadequadas
O encaminhamento de fotografia, a menos que seja solicitado pelo potencial empregador, é desnecessário. Só tem peso nas posições em que aparência é diferencial, como as de recepcionista e de "hostess". Segundo os consultores, os candidatos têm deslizado bastante nesse sentido, enviando fotos em situação de lazer, com a família ou ainda em trajes íntimos ou poses sensuais, por exemplo.

2 - Atentado à gramática
Os erros de português causam impressão de formação deficiente e evidenciam falta de cuidado na finalização do documento, passando uma imagem de "desleixo". "O volume de erros desse tipo é absurdo", comenta Elizabeth Grossman, diretora de RH da Sara Lee. A dica é fazer uma revisão rigorosa e, se preciso, pedir ajuda de alguém mais apto. A mesma cautela é válida para erros de digitação.

3 - Páginas demais
De 40 segundos a um minuto. Esse é o tempo médio de leitura dedicado a cada currículo nos recrutamentos mais concorridos, apontam os selecionadores. Portanto, o candidato que costuma enviar documento com mais de três páginas pode ter certeza de que ele não será lido completamente. "O currículo extenso só é bem recebido na área acadêmica", ensina Viviane Kaba Dona, do Grupo Foco.

4 - Supercompactação
Se o currículo muito extenso é prejudicial, o contrário também acontece, alertam os consultores. Na ansiedade de não cair no excesso de dados, o candidato "dá um jeito" de pôr tudo em uma página. "Para conseguir o tamanho mínimo, [o candidato] diminui tanto a fonte que é preciso ler com lupa. E omite informações importantes para a sua apresentação", observa Neli Barboza, da Manager.

5 - Referências
Para atestar a capacidade do candidato, a conhecida lista de nomes com telefones é às vezes dividida em referências "pessoais" e "profissionais". Mas será que um telefonema para uma vizinha pode ajudar o recrutador que vai entrevistá-lo? "Citar referências é inadequado. Se preciso, ele entra em contato com o antigo empregador por seus próprios meios", diz Marisa da Silva, da Career Center.

6 - RG, CPF, CTPS...
Números da carteira de identidade, do certificado de pessoa física, da carteira de trabalho, do passaporte e até da certidão de nascimento. Embora muitos candidatos achem tentador rechear o currículo com esses dados, os especialistas endossam que são absolutamente desnecessários. Há ainda quem anexe cópias de todos os documentos ao currículo, o que é ainda mais dispensável.

7 - Cursos inúteis
"Caligrafia em 1952", "Datilografia em 1974", "Meditação para purificação do astral" e "Ponto de cruz por correspondência". Cursos que não estão relacionados à posição que o candidato está pleiteando não têm razão para serem mencionados no currículo. "Essa regra deve ser seguida com o máximo rigor para os que concorrem a postos executivos", reforça Cristiane Gonçalves, da KPMG.

8 - Turista
Uma viagem só deve ser mencionada no currículo se agrega valor profissional ao mesmo -intercâmbios e cursos no exterior, por exemplo, constituem vivências internacionais sólidas e agregam valor. Mas há quem relate suas excursões de lazer, programações de férias ("Visitei o Paraguai e adorei") ou viagens que fez a trabalho para cidades vizinhas (Campinas, por exemplo). É desnecessário.

9 - Frases de (d)efeito
"Sou o melhor profissional da minha empresa", "Sou uma pessoa de fácil relacionamento e que adora aprender". Jargões e frases de efeito têm reinado nas páginas dos currículos, causando "arrepios" nos selecionadores. "Há afirmações que beiram o surreal", ressalta a gerente de RH da Sara Lee, Andréa Romão. Pior que isso só escrever "Deus é fiel" no pé do documento. E há quem o faça.

10 - Autógrafo
"Mancada" menos comum hoje do que foi há alguns anos, a mania de assinar o currículo ainda existe e perdura em aproximadamente 40% dos documentos, dizem os especialistas. Para garantir a legitimidade da rubrica, alguns candidatos chegam a reconhecer a firma em cartório. A medida é pura perda de tempo e de dinheiro, pois o currículo nunca deve ser assinado, enfatizam os consultores.

11 - Hobbies e artes
Enquanto buscava estagiários para a sua equipe em uma instituição financeira, o gerente C.A. (que prefere não ser identificado), 28, deparou-se com a seguinte afirmação num currículo: "Adoro esculpir em pedra-sabão". "Nada contra o hobby artístico, mas para que eu precisava saber daquilo?", indagou o gerente, que descartou o candidato. Moral da história: hobbies não devem ser incluídos.

12 - Salário à vista
A remuneração é assunto para ser discutido em entrevista, não para ser estampado no currículo. E, mesmo no caso de a pretensão salarial ser solicitada em anúncio, a inclusão não é unanimidade entre os especialistas. "Uma saída é mencionar o valor atual como parâmetro", recomenda Viviane Kaba Dona, do Grupo Foco. Mas, se a meta é obter um salário melhor, a estratégia não é recomendada.

13 - "Tecniquês"
Engenheiros e profissionais de tecnologia são recordistas nesse deslize: o abuso da linguagem técnica. O resultado é um currículo que beira o incompreensível. "Termos técnicos só devem entrar se são universais, como "Java" e "Linux'", comenta Katia Gaspar, coordenadora de recursos humanos da Dedalus Sistemas, empresa de tecnologia. "O recrutador nem sempre é um técnico", lembra ela.

14 - Língua afiada
Parece mentira, mas há quem aproveite o currículo para falar mal do antigo patrão, "lavar roupa suja" sobre os motivos da demissão ou até incluir informações supostamente confidenciais da empresa em que trabalhou anteriormente. "Esse tipo de erro revela falhas de postura inadmissíveis. Esses acabam na lixeira mesmo", revela Andréa Romão, gerente de recursos humanos da Sara Lee.

15 - Pinóquio
A máxima popular já ensina que mentira tem perna curta. E mentira em currículo tem até hora certa para ir por água abaixo -na entrevista. Entendam-se por mentiras, inclusive, "exagerinhos" nos resultados obtidos e distorção de funções -que podem ser facilmente checados com o antigo empregador. Especialistas consideram "gravíssimo" o fato de um candidato ser "pego na mentira".

16 - Portunhol fluente
Se você não sabe espanhol, não invente de dizer que sabe porque é "parecido com português". Quem faz isso corre o risco pagar um "mico" arranhando um "portunhol" na frente do selecionador antes de ser dispensado da seleção. Conhecimentos de idioma pedem especificação de nível -noções, básico, intermediário ou fluente. E, como a verificação é simples e rápida, é melhor nunca mentir.

17 - Visual para "abalar"
Para fazer um currículo "bem diferente", o candidato escolhe fontes modernas que acha no menu do computador e cria um layout "su- perousado". Imaginando que vai fazer sucesso, imprime o currículo em papel cor de cenoura, por exemplo. "Cores berrantes incomodam", aponta Marisa da Silva, da Career Center. Arrojo só vale para quem é da área de design e conhece bem layout.

18 - Histórico sem fim
Apesar de pedir um tópico intitulado "Formação acadêmica", o currículo dispensa que o profissional se estenda em detalhes da sua vida escolar. No entanto, muitos documentos trazem o nome de todas as escolas por onde o candidato passou, desde o jardim-de-infância. O certo é pôr apenas a formação universitária e especializações posteriores, com nome das instituições e ano de conclusão.

19 - "Conheça-me mais"
É preciso elaborar o currículo tendo sempre em mente que é um documento para fins profissionais. Portanto, tentar usar esse espaço para transmitir detalhes das suas habilidades pessoais não é adequado. "Destacar que era o primeiro aluno no colegial ou citar as medalhas recebidas na escola é inútil", observa Sylmara Valentina, diretora de recursos humanos da consultoria Adecco.

20 - Sem objetivo
Em vez de ajudar, um objetivo muito amplo pode diminuir suas chances. Com medo de perder oportunidades, os candidatos abrem ao máximo esse item usando definições difusas. Por exemplo: "Atuar na área administrativa, como coordenadora, vendedora ou secretária". "Outro erro comum é mencionar nome de cargo que só existe na empresa onde trabalhou", diz Neli Barboza, da Manager.

21 - Pessoas verbais
Conjugar verbos na primeira pessoa do plural -"Coordenamos projetos"- é um erro muito comum. É melhor substituir por uma definição de ação ou usar a primeira pessoa do singular - "Coordenação de projetos" ou "Coordenei projetos". Pior ainda é fazer referência a si usando a terceira pessoa: "Obteve resultados satisfatórios." Dá a idéia de que a ação foi de outro funcionário.

22 - Túnel do tempo
Atualização constante. Essa é a uma regra básica para manter a eficiência do currículo. Enviar um documento desatualizado é um deslize que pode trazer prejuízos. Nem pensar em incluir novos dados manuscritos, o que é mais errado ainda. Mantenha o arquivo sempre à mão e insira as mudanças que ocorrem na carreira, como novos cursos, independentemente de estar empregado ou não.

23 - Loucos por anexos
Como se não bastasse o currículo, há quem goste de encaminhar anexos para fazer mais "volume". Cópias de diplomas e de certificados, cartas de recomendação e até fotocópias autenticadas dos documentos. Para completar, decidem encadernar o "livrinho". A lata de lixo é o destino certo da papelada extra, que não tem utilidade, e o selecionador pode ter o trabalho de destruir a encadernação.

24 - Mais do mesmo
O candidato menciona o que faz no "Objetivo", repete nas "Qualificações profissionais" e depois conta de novo lá no "Histórico" -onde especifica o que fez em cada uma das empresas em que trabalhou. Informações repetidas reduzem a concentração de quem lê. "Às vezes, todas as palavras são idênticas. Perde-se espaço para incluir dados relevantes", descreve Cristiane Gonçalves, da KPMG.

25 - Cartas e bilhetes
Carta de apresentação, só quando é pedida. Ou em casos que requerem explicação, como o do candidato que quer mudar de área. "Já recebi carta de apresentação com papel dos Ursinhos Carinhosos", conta Sylmara Valentina, da Adecco. Uma moda mais recente é a de começar o currículo com um parágrafo com jeito de bilhete, observam os especialistas. E adiantam que é uma péssima idéia.

 



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