PAISAGISMO NA PAULICÉIA


Plano de arborizar São Paulo com 8.000 espécies tem preço alto e paisagismo ruim, dizem especialistas


Os projetos de paisagismo da Prefeitura de São Paulo usam plantas, como a palmeira imperial, que têm preços de mercado que chegam a custar um quinto dos fixados nos editais de licitação. Na diferença maior, o município pagará R$ 2.600 por uma imperial que custa R$ 450 (incluído o transporte) no viveiro Mudas Meurer, de Dourados (MS).
O valor das plantas varia de um edital para outro, o que não deveria ocorrer porque foram feitos na mesma época. Paisagistas e engenheiros agrônomos questionam a qualidade do projeto, que já aparece em publicidade da prefeitura na TV, e destacam o risco de mortalidade em massa de plantas.
A preferência pela palmeira é o alvo das críticas. Para paisagistas, a escolha denuncia a falta de projeto. Em comparação a um grupo de árvores como a quaresmeira e o ipê, que tem copa maior, o palmeiral não é eficiente no controle da temperatura e na retenção de partículas de poluição. "É de uma falta de cultura tremenda. Nosso país tem um acervo de arquitetos que já foi vanguarda internacional", diz Rosa Grena Kliass, presidente da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas e autora de projetos como o do vale Anhangabaú.
Os engenheiros agrônomos, por sua vez, apontam a fragilidade da espécie, que tem raiz curta e é mais suscetível às intempéries. "A imperial é indicada para locais espaçosos, não para um canteiro central, como na Faria Lima. No primeiro temporal forte, muitas vão cair", diz Carlos Adolfo Bantel, presidente da Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais. Os especialistas observaram erros de execução na avenida, como canteiros sem substrato (solo adubado) e palmeiras plantadas com torrão (solo endurecido em volta da raiz) para fora da terra. Além disso, as plantas permitem distorções contábeis por causa da variação de preço e tamanho. Uma guariroba de dez metros, prevista no edital, pode custar R$ 500. A mesma palmeira com seis metros de altura, padrão do mercado, sai por R$ 90 no viveiro Flora Tropical, de Limeira, no interior do Estado.
O presidente da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Maurício Faria, responsável pelos projetos de paisagismo, se diz surpreso com a cotação feita pela Folha.
A reportagem teve acesso a sete licitações da Emurb, quatro com a planilha de serviços e custos. Para fazer a cotação, a Folha enviou pedido de orçamento a três empresas que comercializam plantas em larga escala. O pedido incluiu as três espécies mais caras de palmeira (guariroba, real e imperial), na quantidade e tamanho indicados em um dos editais.
Na Floricultura Campineira, o preço da imperial variou de R$ 800 (31% do valor fixado no edital da prefeitura) a R$ 1.500 (58% deste mesmo valor), dependendo do diâmetro do caule. A maioria das palmeiras usadas pela prefeitura tem caule fino (mais barata).
A licuri foi a única palmeira de preço alto (R$ 800 a unidade) não cotada pelos viveiros. A razão é que essa espécie é típica do Nordeste. Por isso, segundo especialistas, a opção pela licuri adulta é a mais arriscada.
Os quatro editais analisados prevêem o plantio de cerca de 8.000 árvores de variadas espécies. A rapidez da licitação não deu tempo à Secretaria Municipal do Meio Ambiente para aprová-lo. A SMMA cuida de três viveiros, que fornecem gratuitamente mudas de parte dessas plantas.


Clima de São Paulo é ameaça a espécies

O transplante de árvores adultas exige uma verdadeira operação tecnológica, segundo engenheiros agrônomos e florestais ouvidos pela Folha. Nem toda espécie se adapta em São Paulo, principalmente se plantadas no inverno, tempo de pouca água e luminosidade. Porém a operação é feita hoje em ritmo industrial. Resultado: possibilidade de morte em massa de plantas de R$ 2.000.
Os especialistas implicaram com uma das palmeiras do projeto -a licuri, típica do Nordeste. A Folha consultou cinco viveiros de São Paulo e um do Mato Grosso do Sul. Nenhum trabalha com licuris adultas, como exige uma das sete licitações da Emurb. "A única vez que vi essa planta numa cidade foi em Feira de Santana (BA), cuja prefeitura as retirou da mata. Deveria ser exigida certificação de que as espécies vieram de viveiro. Caso contrário, é crime ambiental", afirma Felisberto Cavalheiro, geógrafo e engenheiro agrônomo da Universidade de São Paulo, com doutorado em paisagismo na Alemanha.
Em um dos editais de licitação do projeto Centros de Bairro, é prevista a compra de 144 licuris de seis metros a oito metros de altura mínima (R$ 800 a unidade). Uma planta dessas leva cerca de dez anos para atingir o porte exigido. "Óbvio que as chances de sobrevivência desse tipo de planta é menor em São Paulo. Em geral, as palmeiras são suscetíveis. Dependem de um solo rico e não se adaptam a variações de temperatura. Imagine isso saindo da Bahia", afirma Antônio Natal Gonçalves, professor doutor de ciências florestais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), de Piracicaba, no interior do Estado.
De acordo com ele, as palmeiras imperiais têm outro problema: o espádice da planta, que fica no topo, pode despencar. Em forma de espada, esse pedaço da palmeira chega a pesar 4 kg. A árvore ultrapassa os 20 metros de altura. "Em Ribeirão Preto, um homem foi morto assim", diz. "Não é preciso ir tão longe", afirma Felisberto Cavalheiro. "Mesmo as folhas que caem costumeiramente da palmeira imperial podem ser um transtorno em uma avenida como a Faria Lima", diz. "Na verdade, é preciso pensar três vezes antes de plantar uma árvore na cidade", completa o engenheiro florestal Carlos Bantel.
Na opinião de João Batista Baitello, diretor do Instituto Florestal do Estado de São Paulo, nem seria preciso buscar palmeiras em outro Estado. "A jerivá é típica da cidade. Era encontrada na várzea do rio Tietê. Há uma lista imensa de árvores que compõem a nossa paisagem", afirma.
Carlos Bantel se diz um fã incondicional das palmeiras. "Podem ser soluções bem-boladas, mas são restritas. Nem sempre atendem à função da árvore na silvicultura urbana, que é complexa", afirma. "Com R$ 2.000, eu faço uma praça inteira." A operação tecnológica de transplante pode incluir até caminhões refrigerados, dependendo da espécie. Para replantá-las, é necessário um guindaste. O sucesso da operação é garantido pela procedência da planta, que, de acordo com Cavalheiro, tem de ser apenas um: o viveiro. "Cultivar árvores urbanas exige domá-las. Podar as raízes de ano em ano é uma forma de fazer isso", diz o professor.

 




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