| 16. AÇÕES
COMPLEMENTARES
De acordo com Boisier (1989)
citado por Cavalcanti e Costa (1998) o desenvolvimento de uma região
é o resultado de três tipos de processo. O primeiro refere-se
à dotação territorial de recursos como um elemento
motor do desenvolvimento. Entretanto, o desenvolvimento de uma região
depende de sua participação relativa no uso desses recursos
nacionais, pelos quais as regiões competem explícita ou implicitamente.
Se estes recursos fossem o único fator de desenvolvimento e se,
simultaneamente, houvesse um padrão de desenvolvimento do sistema
regional estritamente proporcional, a dotação de recursos
entre as diferentes regiões deveria refletir, unicamente, as diferenças
de tecnologia agregadas. Assim, a matriz tecnológica de cada região
resultaria num parâmetro fundamental para qualificar a apropriação
de recursos por parte da região. Porém, a dotação
de recursos não é o único fator de desenvolvimento,
ainda que, atue como indutor do processo.
Outro aspecto considerado
relevante são os efeitos (regionais) implícitos ou indiretos
das políticas macroeconômicas e setoriais. As discussões
sobre política podem não gerar atenção ou controvérsias
regionais tão grandes como as decisões sobre investimentos.
A influência regional das decisões de política (econômica)
são, com freqüência, as de maior importância para
o desenvolvimento das regiões, devendo-se, portanto, avaliar o impacto
das políticas macroenonômicas setoriais de maior significado.
Neste sentido, os
autores deste trabalho consideram que a concepção geral deste
projeto (recuperação e proteção ambiental,
obras localizadas em um primeiro momento e o Governo como agente de investimentos
coletivos) pode servir para a maioria dos municípios da região
noroeste paulista. Todavia, não consideram esta proposta como definitiva,
cabendo discussões que visem o aprimoramento da proposta, de tal
sorte que o produto final das políticas públicas implantadas,
venha, efetivamente a promover um incremento nas condições
sócio-econômicas da população regional.
Em terceiro lugar,
o desenvolvimento de uma região depende de sua organização
social, o que implica a capacidade de internalizar regionalmente o próprio
crescimento, isto é, de reter uma proporção significativa
do excedente gerado pelo crescimento econômico e de reinvestí-lo
na região. O desenvolvimento também implica uma situação
de crescente inclusão social das instituições e da
população, tanto na apropriação de resultados
da atividade econômica como nos processos de decisão.
Evidencia-se a importância
da agricultura irrigada, uma vez que ela se situa na base inicial do processo
de integração com outros setores produtivos, tendo em vista
que, na maioria das regiões onde ela é empreendida, a atividade
industrial é praticamente inexistente.
Considerando as condições
essenciais para o desenvolvimento discutidas acima e a predominância
na região de pequenas propriedades, ainda com características
de trabalho familiar, deve-se obrigatoriamente considerar a fruticultura
irrigada como alicerce para o desenvolvimento e aceitar como inexorável
o fato de que somente o agronegócio é capaz de gerar trabalho
e renda para todos ao menor custo e no menor prazo.
Assim, este pode ser mais
do que o projeto Aproveitamento Hidroagrícola no Noroeste Paulista,
pois se pela ação da sociedade civil organizada e das instituições
públicas diversas, unidas, partirem para a concretização
das ações complementares necessárias para o desenvolvimento,
o projeto poderia receber o nome de Programa de Desenvolvimento da Fruticultura
Irrigada na Região dos Grandes Lagos.
E um programa desta
envergadura, que se propõe a recuperar a pujança econômica
do passado, antes alicerçada nos cafeeiros, somente terá
sucesso se baseado no tripé: irrigação, diversificação
agrícola e comercialização.
Uma proposta de diversificação
agrícola deve contemplar identificação de demanda,
crédito para investimento e custeio, treinamento ao agricultor,
pesquisa regional em fruticultura irrigada e distribuição
de mudas.
Do lado da comercialização,
a consolidação e unificação da logomarca "Grandes
Lagos", pesquisa de mercado, treinamento em pós-colheita e gestão
empresarial e o incentivo à implantação de agroindústrias
e ao turismo rural devem ser considerados.
A estabilidade da
produção, a colheita fora de época e o aumento da
produtividade é conseguida através do uso da irrigação.
Um plano de desenvolvimento deve então considerar a identificação
de demanda (realizada neste projeto através do mapa com a potencialidade
das áreas para irrigação), o treinamento em irrigação
e a oferta de infra-estrutura básica. Por infra-estrutura básica
entende-se armazenar e distribuir água a quem não a possui
em quantidade adequada para irrigar suas lavouras e este é o principal
objetivo deste projeto, que pressupõe a ação integrada
da engenharia de irrigação, da conservação
do solo e água e ainda da recomposição do meio ambiente
totalmente degradado pela ação dos desmatamentos e ausência
de conservação do solo.
Poderia estar inserido
na irrigação, porém, considerado de extrema importância,
o manejo da irrigação recebeu um item a parte, pois estudos
na região com a cultura da uva conduzidos pela Área de Hidráulica
e Irrigação da UNESP - Ilha Solteira têm evidenciado
a possibilidade de se economizar até 50% do total de água
aplicada as plantas, o que por si só, poderia representar uma duplicação
da área irrigada com a mesma disponibilidade hídrica.
16.1. Manejo da Irrigação
O manejo da irrigação
é uma das práticas agrícolas mais importante para
o êxito de projetos de irrigação, tendo como princípio
o conhecimento do momento em que se deve irrigar e da quantidade de água
a se aplicar neste momento.
Para se realizar um manejo
adequado da irrigação é necessário entender
a dinâmica da água no sistema solo-planta-atmosfera. É
no solo que fica armazenada a água utilizada pela planta durante
o seu desenvolvimento. A demanda de água é característica
de cada cultura e varia conforme o estádio fenológico em
que se encontra. A energia da atmosfera induz a evaporação
da água pela superfície do solo e a transpiração
das plantas.
A quantidade de água
a ser aplicada pelo sistema de irrigação deve corresponder
no máximo à necessidade para elevar a umidade atual do solo
até à capacidade de campo, a qual corresponde a máxima
capacidade de retenção de água de um determinado solo.
Quando a umidade no solo é mantida neste nível consegue-se
a máxima produção das culturas. Se o teor de água
no solo se eleva para um valor superior à capacidade de campo ocorrem
perdas de água e de nutrientes por drenagem no perfil de solo.
Se a lâmina d’água
aplicada é superior a capacidade de infiltração do
solo, provoca-se o escoamento superficial, que implica em perda de água
e solo. Devido a esse fato, torna-se importante conhecer previamente a
permeabilidade do solo ou condutividade hidráulica saturada.
A diminuição
do teor de água no solo, por falta de água prolongada, pode
afetar as seguintes funções essenciais à planta: fotossíntese,
nutrição mineral, crescimento de raízes, crescimento
vegetal, floração e frutificação.
Assim, para o manejo racional
da irrigação, é necessário o conhecimento da
armazenagem de água no solo ao longo do desenvolvimento da planta,
a fim de que a necessidade hídrica da cultura seja satisfeita na
quantidade e no momento certo.
16.1.1. Parâmetros
Físico-Hídricos dos Solos
A parametrização
físico hídrica foi realizada através de amostras coletadas
em áreas representativas do Podzólico Vermelho Escuro, textura
arenosa/média, pois é a classe de solo que predomina em 92%
da área total de estudo.
A quantificação
das características físico-hídricas dos solos, tais
como, textura, densidade, permeabilidade, porosidade, retenção
de água e água disponível, são indispensáveis
para realização de um manejo racional da irrigação.
Os ensaios de granulometria,
densidade do solo e condutividade hidráulica saturada foram realizados
conforme metodologias descritas por Klute (1986).
Para a elaboração
da curva de retenção, determinaram-se as umidades relacionadas
com as tensões de 0, 10, 30, 50, 80, 400, 800, 4.000 e 15.000 cm
de coluna de água (cca). Os pontos de baixa tensão (50 a
100 cca) da curva característica de retenção de água
foram determinados em laboratório utilizando-se funis de placa porosa,
de acordo com procedimentos citados por LIBARDI (1985). Os pontos de média
e alta tensão (10 a 15.000 cca) foram determinados nas câmaras
de Richards, conforme método descrito por KLUTE (1986).
A curva de retenção
de água no solo relaciona o conteúdo de água do solo
à energia potencial mátrica (Ym),
que é a força com que a água se encontra retida no
espaço poroso do solo, ou seja, na sua matriz. O ajuste matemático
da curva de retenção é feito pelo modelo de Genuchten
(1980) que apresenta a seguinte equação:

onde:
qa = umidade ou conteúdo de
água atual (cm3.cm-3);
qr = umidade residual ou umidade a
15.000 cca (cm3.cm-3);
q s = umidade no ponto de saturação
(cm3.cm-3);
Ym = potencial matricial (cca);
a , m e n = coeficientes gerados pelo modelo.
A capacidade de água disponível
(CAD) é um parâmetro importante nos projetos de irrigação,
pois através da sua quantificação pode-se inferir
acerca da lâmina de água adequada para abastecer o solo na
quantidade exata, sem ocorrer o excesso ou o "déficit".
A capacidade de água disponível
(CAD) é obtida pela equação:
CAD = (qCC
- qPMP)
x Ze
onde:
qCC = umidade
na capacidade de campo (cm3/cm3);
qPMP = umidade no ponto de murchamento
permanente (cm3/cm3);
q a= umidade atual (cm3/cm3);
Ze = profundidade efetiva do sistema radicular (mm).
Adotou-se neste trabalho
a tensão (Ym)
de 80 cca como o valor do potencial mátrico equivalente à
umidade na capacidade de campo, pois esta tensão relaciona-se aos
poros com diâmetros de 37,5 micras, que está próximo
ao limite entre a macroporosidade e a microporosidade (Libardi, 1995).
A umidade equivalente ao
potencial mátrico (Ym)
de 15.000 cca corresponde ao valor do ponto de murchamento permanente ou
umidade residual. Os valores de umidade volumétrica à capacidade
de campo e ponto de murchamento permanente são obtidos através
da curva característica de retenção de água
no solo.
16.1.2. Resultados
da Parametrização Físico Hídrica do Podzólico
Vermelho Escuro
O Quadro 158 apresenta os
valores de umidade (cm3.cm-3)
relacionados às tensões definidas nos ensaios de retenção
de água no solo, realizadas em amostras de Podzólico Vermelho
Escuro correspondentes aos perfis P606 e P607.
QUADRO 158 - As tensões de água
no solo relacionadas às umidades volumétricas (cm3/cm3).
|
Tensão
(cca)
|
Perfil P606: Horizontes
|
Perfil P607: Horizontes
|
|
Ap: 0-30
|
Bt/Ap: 30-55
|
Bt: 55-150+
|
Ap: 0-25
|
Bt/Ap: 25-50
|
Bt: 50-150+
|
|
1
|
0,38
|
0,35
|
0,39
|
0,42
|
0,46
|
0,44
|
|
10
|
0,36
|
0,33
|
0,37
|
0,40
|
0,41
|
0,40
|
|
30
|
0,33
|
0,32
|
0,33
|
0,37
|
0,35
|
0,35
|
|
50
|
0,26
|
0,28
|
0,27
|
0,27
|
0,26
|
0,27
|
|
80
|
0,19
|
0,23
|
0,23
|
0,20
|
0,24
|
0,23
|
|
400
|
0,09
|
0,14
|
0,14
|
0,10
|
0,13
|
0,13
|
|
800
|
0,08
|
0,10
|
0,11
|
0,07
|
0,10
|
0,11
|
|
4.000
|
0,06
|
0,08
|
0,07
|
0,06
|
0,08
|
0,10
|
|
15.000
|
0,05
|
0,07
|
0,06
|
0,05
|
0,08
|
0,09
|
O Quadro 159 corresponde aos valores
dos parâmetros da equação de Genuchten (1980) das curvas
de retenção dos horizontes pedológicos relacionados
aos perfis P606 e P607, representativos do Podzólico Vermelho Escuro,
textura arenosa/média.
QUADRO 159 - Parâmetros da equação
de Genuchten (1980).
|
PERFIL
|
Horizonte: profundidade (cm)
|
Parâmetros da equação
de Van Genuchten
|
|
a
|
m
|
n
|
qr
|
qs
|
|
P606
|
Ap: 0-30
|
0,025857
|
0,481663
|
1,929249
|
0,053
|
0,381
|
|
P606
|
Bt/Ap: 30-55
|
0,021425
|
0,424826
|
1,738603
|
0,074
|
0,354
|
|
P606
|
Bt: 55-150+
|
0,031173
|
0,370279
|
1,588004
|
0,056
|
0,393
|
|
P607
|
Ap: 0-25
|
0,025421
|
0,515679
|
2,064747
|
0,051
|
0,423
|
|
P607
|
Bt/Ap: 25-50
|
0,041374
|
0,425705
|
1,741266
|
0,079
|
0,457
|
|
P607
|
Bt: 50-150+
|
0,03654
|
0,45235
|
1,825983
|
0,092
|
0,443
|
.
As Figuras
20 a 25 apresentam as curvas de retenção
de água dos horizontes pedológicos relacionados aos perfis
P606 e P607, representativos do Podzólico Vermelho Escuro, textura
arenosa/média.
FIGURA 20 - Curva de retenção
de água do horizonte Ap (0-30 cm) do
Podzólico Vermelho
Escuro, textura arenosa/média (Perfil P606).
FIGURA 21 - Curva de retenção
de água do horizonte Bt/Ap (30-55 cm) do
Podzólico Vermelho
Escuro, textura arenosa/média (Perfil P606)
.
FIGURA 22 - Curva de retenção
de água do horizonte Bt (55-150+ cm) do
Podzólico Vermelho
Escuro, textura arenosa/média (Perfil P606)
.
FIGURA 23 - Curva de retenção
de água do horizonte Ap (0-25 cm) do
Podzólico Vermelho
Escuro, textura arenosa/média (Perfil P607)
FIGURA 24 - Curva de retenção
de água do horizonte Bt/Ap (25-50 cm) do
Podzólico Vermelho
Escuro, textura arenosa/média (Perfil P607).
FIGURA 25 - Curva de retenção
de água do horizonte Bt/Ap (50-150+ cm)
do Podzólico Vermelho
Escuro, textura arenosa/média (Perfil P607).
Os Quadros 160 e 161 apresentam
os valores de granulometria, densidade do solo, porosidade total, condutividade
hidráulica saturada e de capacidade de água disponível
dos horizontes superficiais do Podzólico Vermelho Escuro, textura
arenosa/média.
QUADRO 160 - Parâmetros físicos
hídricos do Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média.
|
P606
|
Densidade
do Solo
(g/cm3)
|
Granulometria (%)
|
Porosidade
total (%)
|
Conduti.
|
umidades
|
CAD
|
|
Horizonte:
|
Hidráulica
|
(cm3/cm3)
|
(mm/cm)
|
|
Profundidade (cm)
|
Areia
|
Silte
|
Argila
|
Determinada
|
Saturada (mm/h)
|
cc
|
pmp
|
0,08 a 15 bar
|
|
Ap: 0-30
|
1,56
|
84
|
6
|
10
|
38,10
|
28,98
|
0,19
|
0,05
|
1,4
|
|
Bt/Ap: 30-55
|
1,61
|
80
|
7
|
13
|
35,38
|
16,56
|
0,23
|
0,07
|
1,6
|
|
Bt: 55-150+
|
1,49
|
70
|
10
|
20
|
39,33
|
18,22
|
0,23
|
0,06
|
1,7
|
QUADRO 161 - Parâmetros
físicos hídricos do Podzólico Vermelho Escuro, textura
arenosa/média.
|
P607
|
Densidade
do Solo
(g/cm3)
|
Granulometria (%)
|
Porosidade
total (%)
|
Conduti.
|
umidades
|
CAD
|
|
Horizonte:
|
Hidráulica
|
(cm3/cm3)
|
(mm/cm)
|
|
Profundidade (cm)
|
Areia
|
Silte
|
Argila
|
Determinada
|
Saturada (mm/h)
|
cc
|
pmp
|
0,08 a 15 bar
|
|
Ap: 0-25
|
1,50
|
81
|
7
|
12
|
42,30
|
110,12
|
0,20
|
0,05
|
1,5
|
|
Bt/Ap: 25-50
|
1,50
|
79
|
8
|
13
|
45,72
|
133,31
|
0,24
|
0,08
|
1,6
|
|
Bt: 50-150+
|
1,44
|
69
|
9
|
22
|
44,33
|
52,16
|
0,23
|
0,09
|
1,4
|
16.2. Irrigação - Ações
Complementares
16.2.1. Treinamento
As ações
previstas para o item irrigação contemplam treinamento intensivo
tanto de técnicos, como de produtores e levantamento das reais demandas
por obras de infra-estrutura básica e conservação
dos solos, obras de engenharia para uso e desfrute coletivo. Tal levantamento
e discussões posteriores devem ser encaminhados por técnicos
da região, conhecedores dos reais mecanismos locais de produção
e comercialização, porém tal discussão somente
se dará a bom termo se os Técnicos estiverem bem alicerçado
nas diversas áreas de conhecimento e isto somente se consegue através
do treinamento e da transferência de tecnologia entre os pares.
Este processo de discussão
regional e treinamento teve início em agosto de 1.998 com a realização
de Simpósio Internacional de Agricultura Irrigada, realizado na
cidade de Jales. Em janeiro de 1.999, vinte e oito Técnicos do oeste
paulista participaram em Ilha Solteira do Curso de Capacitação
em Agricultura Irrigada.
Em agosto de 2.000
terá início o Programa de Capacitação em Agricultura
Irrigada da Bacia Hidrográfica do Rio São José dos
Dourados, sendo este um programa que objetiva o treinamento de Agentes
de Assistência Técnica com a disposição de capacitá-los
à entender todas as faces e necessidades de uma agricultura irrigada,
centrada na engenharia da irrigação, de modo à torná-la
mais rentável e moderna. É um programa de capacitação
que mescla características de cursos de informação
com os de formação, uma vez que são propostas avaliações
de desempenho de equipamentos de irrigação em operação,
aulas práticas, novas abordagens e avaliação de conhecimentos,
além de exigir o repasse dos conhecimentos adquiridos através
do oferecimento de novos cursos tendo como público alvo os agricultores.
Serão vinte e cinco edições do curso a serem ministrados
por cada um dos Técnicos participantes do curso inicial, em um efeito
cascata que visa atender no mínimo quinhentos produtores rurais
em 25 cidades da região.
De qualquer maneira, cursos
ligados a engenharia de irrigação e manejo de sistemas de
irrigação devem ser de duração continuada visando
a formação de massa crítica em relação
ao tema. Somente com Técnicos bem capacitados será possível
dar o salto tecnológico que se espera para um processo integrado
de desenvolvimento sócio-econômico.
16.2.2. Pesquisa
Aplicada
O desenvolvimento de uma
agricultura irrigada forte e de alto nível deve estar alicerçado
em pesquisas regionais e na transferência do conhecimento ligado
ao consumo de água para as plantas, através do conhecimento
das relações solo-água-planta-atmosfera, onde a palavra-chave
chama-se evapotranspiração, ou seja nas mais diferentes culturas,
deve-se saber o quando e o quanto irrigar.
Estudos desta natureza já
foram iniciados pela UNESP-Ilha Solteira com as culturas de milho, feijão,
soja, pupunha, uva e acerola que ainda opera as estações
agroclimatológicas automáticas localizadas nos municípios
de Ilha Solteira, Marinópolis e Junqueirópolis, compilando
e disponibilizando os dados de necessidades de irrigação
das culturas. Estes trabalhos são financiados pela FAPESP.
As variáveis climatológicas
e o consumo de água pelas culturas passarão a ser melhor
representadas e estudas a partir de outras quatro estações
agroclimatológicas a serem implantadas pelo Instituto Agronômico
de Campinas com recursos do FEHIDRO através do Comitê da Bacia
Hidrográfica do Rio São José dos Dourados.
Estes equipamentos permitirão
subsidiar pesquisas aplicadas com as diferentes culturas. Porém,
estudos que levem em conta a interação das plantas com o
meio físico, tal como crescimento e distribuição de
raízes, desempenho de novos equipamentos de irrigação,
uso de tensiometria no controle da irrigação, entre outros,
devem ser incentivados.
16.3. Comercialização
16.3.1. Logotipo Identificador
As ações
e transformações regionais ligadas à comercialização
são mais lentas e dependem muito de trabalhos de convencimento e
amadurecimento. Para isso deverá ser criado o logotipo que identificará
a origem dos produtos. Tem-se como sugestão assumir a marca “GRANDES
LAGOS” associada com um logotipo a ser discutido e aceito por todos como
representativo da região. A visão dos consumidores, ligando
as belezas naturais da região a seus produtos, trará inegavelmente
uma imagem de qualidade aos mesmos.
A definição
e elaboração de projetos concretos requerem um trabalho integrado
dos diversos órgãos da Secretaria de Agricultura e Abastecimento,
sem a característica departamentalização de ações,
bem como o estabelecimento de “parcerias” com outros agentes envolvidos
como Prefeituras Municipais, Universidades, Embrapa, Ensino Agrícola
e Organizações da Sociedade Civil.
16.3.2. Pesquisa
e Direcionamento de Mercado
A definição
do mercado alvo, bem como a descoberta de novos nichos de mercado é
fundamental para o desenvolvimento regional, sendo necessário a
montagem de estratégias de comercialização. De fato,
estudos conduzidos pelo BNDES (Faveret Filho et al, 1999) mostram que o
mercado mundial de frutas frescas cresce rapidamente, mas é muito
influenciado por políticas públicas nos principais países
importadores, além de ser muito intensa a concorrência. A
competitividade internacional parece depender cada vez mais de sistemas
eficientes de comercialização, que são resultados
de políticas públicas e privadas, combinadas em doses variáveis.
Apesar da tentação
que o mercado internacional oferece aos agentes de comercialização,
inspirando discussões acaloradas, reconhece-se como correta, a visão
externada pelo Prof. Guilherme Dias no Simpósio Internacional de
Fruticultura Irrigada (1998), de que a região deve primeiro conquistar
e consolidar os mercados regionais próximos, tais como as regiões
administrativas de São José do Rio Preto, Bauru, Ribeirão
Preto, Campo Grande e Triângulo Mineiro e somente depois, alçar
vôos maiores, qual seja, o caminho da exportação.
De fato, reconhece-se que
a fruticultura brasileira, para se tornar uma atividade exportadora, carece
de uma coordenação de mercado e de políticas públicas
que possibilitem a constituição de uma cadeia produtiva que
tenha infra-estrutura e mecanismos de comercialização que
dêem conta das exigências dos mercados interno e externo
para que realmente possa dar conseqüência à sua potencialidade.
No campo da exportação
de frutas frescas, nosso desempenho pode ser considerado pífio perto
de outros países, tais como Chile e Israel. Em 1999 foi da ordem
de apenas US$ 162,6 milhões, com previsão de crescer 20%
no ano de 2.000, podendo chegar a US$195 milhões, resultado da exportação
de 514 mil toneladas de frutas (Gazeta Mercantil, 29/03/2000).
De qualquer maneira, a procura
por nichos de mercado deve ser de ação imediata e coordenada
por uma entidade civil regional para orientação e controle
de padrões de qualidade. Um banco de dados com acesso para as entidades
civis e governamentais constituídas é de extrema importância
e neste sentido, a Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento
tem importância fundamental para a efetivação desta
ação, uma vez que a estrutura do CODEAGRO pode ser utilizada,
como agente centralizador dos dados macro-econômicos.
A divulgação
dos padrões de qualidade exigidos pelos diferentes mercados deve
ter início imediamente visando firmar posição em relação
à consciência da qualidade do produto ofertado.
A estruturação
de um “Agromailing”, ou seja, a informação agropecuária
digital, proverá os produtores periodicamente de informações
sobre mercado futuro, padrões de qualidade, movimentação
de safras, entre outros. Atualmente, as EDR’s - CATI estão equipadas
com conexão com a Internet e num futuro bastante próximo,
imagina-se a conexão de todas as Casas da Agricultura e Prefeituras
com essa mídia. A disseminação de provedores de e_mail
grátis possibilita a redução de custos na implantação
destes sistemas, restando apenas o treinamento dos produtores a esta mídia.
O acesso aos produtores
e/ou Associações/Coperativas/Empresas à Internet permite
a obtenção de informações das mais diferentes
naturezas, contribuindo para a modernização e tecnificação
de suas lavouras.
16.3.3. Treinamento
e Formação de Mão de Obra Qualificada
Trabalhos de treinamento
em qualidade da produção, embalagem e conservação
pós-colheita, administração rural, empresarial e gerência
deverão ser realizados à nível de Técnicos
e Produtores, bem como deverão ser incentivada a implantação
de células de comercialização coletiva, através
da organização em Empresa de Participação Comunitária,
Associações, Cooperativas ou fortalecimento das diferentes
organizações civis já existentes, sem esquecer do
estímulo à criação de agroindústrias
com agregação de valor aos produtos básicos.
Esta percepção
já chegou à Escola Técnica Estadual “Dr. José
Luiz Viana Coutinho” de Jales (Qualificação em Agronegócios
- Qualificação Profissional Básica, CEETEPS - ETE,
Jales, fevereiro, 2.000, 17p.), que em fevereiro deste ano propôs
a criação do curso de “Qualificação em Agronegócios”
. Em seu documento básico, a Escola faz um diagnóstico preciso
da agricultura regional, apontando os pontos de estragulamento e traz a
proposta de investir na formação de recursos humanos dentro
da ótica da “tecnologia de processos”, em detrimento à “tecnologia
de produtos”.
16.3.4. Incentivo
à Agroindústrias
Neste item, quando
se fala em agroindústria, na verdade trata-se do agronegócio
no sentido mais amplo, ou seja, a agregação de valor à
produção. A agregação de valor à agricultura
é fundamental para o desenvolvimento de uma região e nesse
sentido a opção pela fruticultura e a produção
de hortaliças certamente é um bom começo para a implantação
de agroindústrias que fariam o processamento integral ou mesmo a
utilização das tecnologias chamadas de produtos minimamente
processados.
A discussão
sobre as vantagens da agregação de valor é dispensável,
uma vez que não há controvérsia sobre a sua importância.
O próprio Governo Federal, através do Ministério da
Agricultura e Abastecimento, reconhece esta importância quando editou
a publicação Nova Perspectivas para o Agronegócio
(1998).
Dessa maneira, o incentivo
a criação de agroindústrias capazes de processar os
produtos produzidos na região é fundamental. No entanto,
o fomento se dará através de discussões técnicas,
que passa obrigatoriamente pelo estudo completo da matriz insumo-produto
de várias culturas, visando identificar os produtos que podem apresentar
uma maior agregação de valor, sendo que estes deverão
receber incentivos na implantação de agroindústrias.
Porém, desde já reconhece-se que os projetos devem ter como
característica o favorecimento de plantas agroindustriais pequenas
e econômicas que podem rapidamente aumentar sua capacidade e/ou sua
produção sem afetar muito a empresa como um todo e que podem,
inclusive, cada uma especializar-se em certos tipos de produtos, segundo
um planejamento central.
A profissionalização
da estrutura gerencial de Cooperativas e Associações de Produtores
e a criação de Fóruns técnicos com espaço
para discussão de idéias e tecnologias é fundamental
neste processo.
16.4. Diversificação Agrícola
16.4.1. Identificação
de Demanda, Produção de Mudas e Treinamento
A potencialidade da
fruticultura brasileira, especialmente a irrigada, é inquestionável.
Porém, os gargalos em cada uma das fases, da produção
à comercialização, ainda esperam soluções
adequadas, apesar de detectadas há longo tempo. A produção
de frutas exige um complexo sistema de plantio, condução,
colheita, tratamento pós-colheita, transporte e exposição
nos pontos de venda. Todo o sistema tem por objetivo lidar com o seu alto
nível de perecibilidade e fragilidade intrínseco.
Dessa maneira, o apoio
à diversificação da fruticultura começa também
pelo treinamento e disseminação do conhecimento técnico
disponível aos agentes de Assistência Técnica e produtores
rurais, fazendo assim a transferência de tecnologia já existente,
mas avança na formação de um grande viveiro de produção
de mudas que atenderá a demanda dos produtores de toda a região
com mudas selecionadas e de qualidade.
Um programa que prevê
a produção em grande escala de mudas de qualidade de diferentes
frutíferas, que seriam fornecidas aos produtores, somente pode ser
implantado se baseado na identificação da demanda pelo mercado,
seja “in natura” ou agroindustrial, identificado na matriz insumo-produto
já discutida.
Sem entrar na complexidade
de uma matriz insumo-produto, mas levando-se em conta parâmetros
regionais de mercado, alguns os produtos agropecuários foram classificados
de acordo com o potencial de curto, médio e longo prazo, considerando
disponibilidade de matéria prima para comercialização,
tecnologias de produção e organização do setor.
Dessa maneira, foram
identificados como de curto as atividades já instaladas e adaptadas
regionalmente, como os cultivos de pupunha, citros, coco, anonáceas,
banana, café, hortaliças, mandioca, milho, pescado, produção
de sementes de gramíneas, apicultura e outras.
De médio prazo
foram classificadas as atividades já instaladas e adaptadas regionalmente,
mas com produção em pequena escala, no caso, o cultivo de
abacaxi, limão, tangerina, goiaba, romã, caqui, olerícolas
e outras. De longo prazo são consideradas as atividades cujas características
são promissoras, no entanto carecem de pesquisa e neste caso, as
culturas do fumo, condimentos, ervas medicinais e a produção
de uva para vinho.
O mesmo modelo de
treinamento do Programa de Capacitação em Agricultura Irrigada
deve ser adotado para a fruticultura irrigada, qual seja a capacitação
de Agentes de Assistência Técnica, que numa estratégia
de efeito multiplicador atenderia à uma grande massa de agricultores,
onde o enfoque principal estará na abordagem de temas ligados a
técnicas de cultivo, conservação pós-colheita
e comercialização das principais fruteiras presentes na região.
Considera-se esta atividade como fundamental para o desenvolvimento da
fruticultura da região.
16.4.2. Pesquisa
em Fruticultura Irrigada
Como resultado da
priorização da fruticultura irrigada como motor do desenvolvimento
regional, há a necessidade de se produzir incentivo e fomento para
pesquisas em técnicas de produção, seleção
de variedades adaptadas para as condições de agricultura
irrigada e introdução de novas culturas.
Nesta ação
a participação da UNESP, IAC e do Centro Experimental da
EMBRAPA de Jales, vinculado ao Centro de Pesquisa em Uva e Vinho de Bento
Gonçalves é fundamental, pois estas Instituições
têm recursos humanos altamente capacitados para a execução
destas atividades de pesquisa.
16.4.3. Financiamento
à Investimentos e Custeio
O sistema de financiamento
da produção tem deixado a desejar há muito tempo.
Os recursos são escassos e normalmente não chegam no momento
adequado para fazer face as necessidades de custeio, enquanto que os recursos
para investimentos na produção apresentam juros incompatíveis
com a importância que a agricultura representa para a sociedade como
um todo.
Também o sistema
de financiamento de curto prazo se caracteriza pelo risco estar estar exageradamente
concentrado no produtor, que dado ao risco, aloca poucos recursos próprios
para investimentos. No tocante ao financiamento dos investimentos de longo
prazo, o sistema bancário o evita, ficando concentrado no BNDES,
enquanto que os bancos privados não se interessam pelo financiamento
do custeio, se concentrando então nos bancos oficiais.
Diante desse quadro,
políticas de financiamento dos investimentos e da produção
que atendam as necessidades da agricultura devem ser implementadas, onde
redistribui o risco na intermediação financeira é
pré condição para a recuperação dos
níveis de investimentos no setor agrícola. Dias e equipe
(Coordenador do Projeto COMIF - Reestruturação do Sistema
Financeiro, 2.000) faz uma proposta de reestrutura do sistema de
financiamento da agricultura em que as estratégias a serem adotadas
devam contemplar a ampliação do nível de investimento
no setor e ao mesmo tempo aumentar substancialmente a capilaridade do sistema
de financiamento.
O Secretário
de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo nomeou em
12 de abril de 2.000 (D.O.E. de 13/04/2.000), através da Resolução
SAA 07, Grupo de Trabalho para estudos de viabilidade técnica sobre
a criação de um programa de financiamento pelo FEAP - Fundo
de Expansão da Agropecuária e da Pesca, para a implantação
de irrigação em propriedades rurais do Estado.
Dada a escassez de
recursos do FEAP, a sugestão é a de que o financiamento seja
para a aquisição de qualquer método ou sistema de
irrigação com valores inferiores a R$ 15.000,00 por produtor,
para todas as culturas que apresentem viabilidade técnica, atestada
por Engenheiro Agrônomo da CATI e projeto técnico e executivo
do sistema a ser implantado. Considerando a vocação da fruticultura
para as pequenas propriedades, sugere-se dois anos de carência e
de três a cinco anos para pagamento (em função da fenologia
da cultura a ser implantada).
Do lado regional,
seria interessante que o sistema bancário provesse condições
especiais e diferenciadas para que os novos plantios fossem implantados
nas áreas de maior potencial para a irrigação, conforme
a Folha 07. Com esta prática, o sistema
bancário estaria dando sua contribuição na preservação
dos recursos naturais.
16.5. Agroturismo
O agroturismo tem
se mostrado uma opção de entretenimento, sendo que a própria
região já apresenta histórias de sucesso empresarial
nesta atividade. Todavia, na implantação incentivada desta
atividade deve-se considerar que o meio ambiente deve apresentar um conjunto
harmonioso e este projeto prevê a recuperação ambiental
e até mesmo a recomposição paisagística das
estradas da região.
Todavia, o incremento
na produção de produtos artesanais (doces, geléias,
etc), o treinamento, a criação de um calendário de
feiras específicas nos municípios e o envolvimento da sociedade
civil organizada neste eventos é necessário.
16.6. Considerações Adicionais
Os investimentos têm
sido, até os dias de hoje, orientados primordialmente ao financiamento
da produção e aquisição de insumos. Tal política
tem como conseqüência uma superprodução, desestimulando
o produtor. Os investimentos no setor da comercialização
e distribuição, garantindo um fluxo desimpedido do produto,
pode trazer como conseqüência a produção de produtos
que não permitem uma agregação de valores, transferindo
para fora a maior parte de sua renda.
Neste contexto é
que o setor agroindustrial, dentro do complexo rural, tem o maior efeito
multiplicador da renda e do emprego com maior poder de impacto na produtividade
da unidade rural, permitindo concentrar as principais decisões econômicas
do quê, quanto, onde e como produzir, unificando os interesses econômicos
dos produtores e da agroindústria, evitando o crescimento de um
em detrimento do outro.
Portanto, se torna
importante o apoio do Estado no sentido de promover a discussão,
coordenando o proposto, reduzindo assim o imediatismo das ações,
tão característico do setor agropecuário. De qualquer
as soluções para a região devem vir da própria
região, ou seja, seus atores (produtores rurais, Técnicos,
comerciantes, sociedade civil organizada e Instituições Públicas)
devem sentar na mesma mesa, organizar as idéias e definir qual o
caminho a ser trilhado. No cenário econômico atual não
mais espaço para ações isoladas e parceria passa ser
a palavra-chave.
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