16. AÇÕES COMPLEMENTARES

De acordo com Boisier (1989) citado por Cavalcanti e Costa (1998) o desenvolvimento de uma região é o resultado de três tipos de processo. O primeiro refere-se à dotação territorial de recursos como um elemento motor do desenvolvimento. Entretanto, o desenvolvimento de uma região depende de sua participação relativa no uso desses recursos nacionais, pelos quais as regiões competem explícita ou implicitamente. Se estes recursos fossem o único fator de desenvolvimento e se, simultaneamente, houvesse um padrão de desenvolvimento do sistema regional estritamente proporcional, a dotação de recursos entre as diferentes regiões deveria refletir, unicamente, as diferenças de tecnologia agregadas. Assim, a matriz tecnológica de cada região resultaria num parâmetro fundamental para qualificar a apropriação de recursos por parte da região. Porém, a dotação de recursos não é o único fator de desenvolvimento, ainda que, atue como indutor do processo.
 Outro aspecto considerado relevante são os efeitos (regionais) implícitos ou indiretos das políticas macroeconômicas e setoriais. As discussões sobre política podem não gerar atenção ou controvérsias regionais tão grandes como as decisões sobre investimentos. A influência regional das decisões de política (econômica) são, com freqüência, as de maior importância para o desenvolvimento das regiões, devendo-se, portanto, avaliar o impacto das políticas macroenonômicas setoriais de maior significado.
 Neste sentido, os autores deste trabalho consideram que a concepção geral deste projeto (recuperação e proteção ambiental, obras localizadas em um primeiro momento e o Governo como agente de investimentos coletivos) pode servir para a maioria dos municípios da região noroeste paulista. Todavia, não consideram esta proposta como definitiva, cabendo discussões que visem o aprimoramento da proposta, de tal sorte que o produto final das políticas públicas implantadas, venha, efetivamente a promover um incremento nas condições sócio-econômicas da população regional.
 Em terceiro lugar, o desenvolvimento de uma região depende de sua organização social, o que implica a capacidade de internalizar regionalmente o próprio crescimento, isto é, de reter uma proporção significativa do excedente gerado pelo crescimento econômico e de reinvestí-lo na região. O desenvolvimento também implica uma situação de crescente inclusão social das instituições e da população, tanto na apropriação de resultados da atividade econômica como nos processos de decisão.
 Evidencia-se a importância da agricultura irrigada, uma vez que ela se situa na base inicial do processo de integração com outros setores produtivos, tendo em vista que, na maioria das regiões onde ela é empreendida, a atividade industrial é praticamente inexistente.
 Considerando as condições essenciais para o desenvolvimento discutidas acima e a predominância na região de pequenas propriedades, ainda com características de trabalho familiar, deve-se obrigatoriamente considerar a fruticultura irrigada como alicerce para o desenvolvimento e aceitar como inexorável o fato de que somente o agronegócio é capaz de gerar trabalho e renda para todos ao menor custo e no menor prazo. 
Assim, este pode ser mais do que o projeto Aproveitamento Hidroagrícola no Noroeste Paulista, pois se pela ação da sociedade civil organizada e das instituições públicas diversas, unidas, partirem para a concretização das ações complementares necessárias para o desenvolvimento, o projeto poderia receber o nome de Programa de Desenvolvimento da Fruticultura Irrigada na Região dos Grandes Lagos.
 E um programa desta envergadura, que se propõe a recuperar a pujança econômica do passado, antes alicerçada nos cafeeiros, somente terá sucesso se baseado no tripé: irrigação, diversificação agrícola e comercialização.
 Uma proposta de diversificação agrícola deve contemplar identificação de demanda, crédito para investimento e custeio, treinamento ao agricultor, pesquisa regional em fruticultura irrigada e distribuição de mudas. 
Do lado da comercialização, a consolidação e unificação da logomarca "Grandes Lagos", pesquisa de mercado, treinamento em pós-colheita e gestão empresarial e o incentivo à implantação de agroindústrias e ao turismo rural devem ser considerados.
 A estabilidade da produção, a colheita fora de época e o aumento da produtividade é conseguida através do uso da irrigação. Um plano de desenvolvimento deve então considerar a identificação de demanda (realizada neste projeto através do mapa com a potencialidade das áreas para irrigação), o treinamento em irrigação e a oferta de infra-estrutura básica. Por infra-estrutura básica entende-se armazenar e distribuir água a quem não a possui em quantidade adequada para irrigar suas lavouras e este é o principal objetivo deste projeto, que pressupõe a ação integrada da engenharia de irrigação, da conservação do solo e água e ainda da recomposição do meio ambiente totalmente degradado pela ação dos desmatamentos e ausência de conservação do solo.
 Poderia estar inserido na irrigação, porém, considerado de extrema importância, o manejo da irrigação recebeu um item a parte, pois estudos na região com a cultura da uva conduzidos pela Área de Hidráulica e Irrigação da UNESP - Ilha Solteira têm evidenciado a possibilidade de se economizar até 50% do total de água aplicada as plantas, o que por si só, poderia representar uma duplicação da área irrigada com a mesma disponibilidade hídrica.
 

16.1. Manejo da Irrigação
O manejo da irrigação é uma das práticas agrícolas mais importante para o êxito de projetos de irrigação, tendo como princípio o conhecimento do momento em que se deve irrigar e da quantidade de água a se aplicar neste momento.
Para se realizar um manejo adequado da irrigação é necessário entender a dinâmica da água no sistema solo-planta-atmosfera. É no solo que fica armazenada a água utilizada pela planta durante o seu desenvolvimento. A demanda de água é característica de cada cultura e varia conforme o estádio fenológico em que se encontra. A energia da atmosfera induz a evaporação da água pela superfície do solo e a transpiração das plantas.
A quantidade de água a ser aplicada pelo sistema de irrigação deve corresponder no máximo à necessidade para elevar a umidade atual do solo até à capacidade de campo, a qual corresponde a máxima capacidade de retenção de água de um determinado solo. Quando a umidade no solo é mantida neste nível consegue-se a máxima produção das culturas. Se o teor de água no solo se eleva para um valor superior à capacidade de campo ocorrem perdas de água e de nutrientes por drenagem no perfil de solo.
Se a lâmina d’água aplicada é superior a capacidade de infiltração do solo, provoca-se o escoamento superficial, que implica em perda de água e solo. Devido a esse fato, torna-se importante conhecer previamente a permeabilidade do solo ou condutividade hidráulica saturada. 
A diminuição do teor de água no solo, por falta de água prolongada, pode afetar as seguintes funções essenciais à planta: fotossíntese, nutrição mineral, crescimento de raízes, crescimento vegetal, floração e frutificação.
Assim, para o manejo racional da irrigação, é necessário o conhecimento da armazenagem de água no solo ao longo do desenvolvimento da planta, a fim de que a necessidade hídrica da cultura seja satisfeita na quantidade e no momento certo.

 16.1.1. Parâmetros Físico-Hídricos dos Solos
A parametrização físico hídrica foi realizada através de amostras coletadas em áreas representativas do Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média, pois é a classe de solo que predomina em 92% da área total de estudo.
A quantificação das características físico-hídricas dos solos, tais como, textura, densidade, permeabilidade, porosidade, retenção de água e água disponível, são indispensáveis para realização de um manejo racional da irrigação.
Os ensaios de granulometria, densidade do solo e condutividade hidráulica saturada foram realizados conforme metodologias descritas por Klute (1986).
Para a elaboração da curva de retenção, determinaram-se as umidades relacionadas com as tensões de 0, 10, 30, 50, 80, 400, 800, 4.000 e 15.000 cm de coluna de água (cca). Os pontos de baixa tensão (50 a 100 cca) da curva característica de retenção de água foram determinados em laboratório utilizando-se funis de placa porosa, de acordo com procedimentos citados por LIBARDI (1985). Os pontos de média e alta tensão (10 a 15.000 cca) foram determinados nas câmaras de Richards, conforme método descrito por KLUTE (1986).
A curva de retenção de água no solo relaciona o conteúdo de água do solo à energia potencial mátrica (Ym), que é a força com que a água se encontra retida no espaço poroso do solo, ou seja, na sua matriz. O ajuste matemático da curva de retenção é feito pelo modelo de Genuchten (1980) que apresenta a seguinte equação:

onde: 
              qa = umidade ou conteúdo de água atual (cm3.cm-3);
              qr = umidade residual ou umidade a 15.000 cca (cm3.cm-3);
              q s = umidade no ponto de saturação (cm3.cm-3);
             Ym = potencial matricial (cca);
             a , m e n = coeficientes gerados pelo modelo.
A capacidade de água disponível (CAD) é um parâmetro importante nos projetos de irrigação, pois através da sua quantificação pode-se inferir acerca da lâmina de água adequada para abastecer o solo na quantidade exata, sem ocorrer o excesso ou o "déficit".
A capacidade de água disponível (CAD) é obtida pela equação:

CAD = (qCC - qPMP) x Ze

onde:
       qCC = umidade na capacidade de campo (cm3/cm3);
              qPMP = umidade no ponto de murchamento permanente (cm3/cm3);
              q a= umidade atual (cm3/cm3);
           Ze = profundidade efetiva do sistema radicular (mm).

Adotou-se neste trabalho a tensão (Ym) de 80 cca como o valor do potencial mátrico equivalente à umidade na capacidade de campo, pois esta tensão relaciona-se aos poros com diâmetros de 37,5 micras, que está próximo ao limite entre a macroporosidade e a microporosidade (Libardi, 1995).
A umidade equivalente ao potencial mátrico (Ym) de 15.000 cca corresponde ao valor do ponto de murchamento permanente ou umidade residual. Os valores de umidade volumétrica à capacidade de campo e ponto de murchamento permanente são obtidos através da curva característica de retenção de água no solo.

 16.1.2. Resultados da Parametrização Físico Hídrica do Podzólico Vermelho Escuro
O Quadro 158 apresenta os valores de umidade (cm3.cm-3) relacionados às tensões definidas nos ensaios de retenção de água no solo, realizadas em amostras de Podzólico Vermelho Escuro correspondentes aos perfis P606 e P607.

QUADRO 158 - As tensões de água no solo relacionadas às umidades volumétricas (cm3/cm3).

Tensão

(cca)

Perfil P606: Horizontes
Perfil P607: Horizontes
Ap: 0-30
Bt/Ap: 30-55
Bt: 55-150+
Ap: 0-25
Bt/Ap: 25-50
Bt: 50-150+
1
0,38 
0,35
0,39 
0,42 
0,46 
0,44 
10
0,36 
0,33 
0,37 
0,40 
0,41 
0,40 
30
0,33 
0,32 
0,33
0,37 
0,35 
0,35 
50
0,26 
0,28 
0,27 
0,27 
0,26 
0,27 
80
0,19 
0,23 
0,23 
0,20 
0,24 
0,23 
400
0,09 
0,14
0,14 
0,10 
0,13 
0,13 
800
0,08 
0,10 
0,11 
0,07 
0,10 
0,11 
4.000
0,06 
0,08 
0,07 
0,06 
0,08 
0,10 
15.000
0,05
0,07
0,06
0,05
0,08
0,09

O Quadro 159 corresponde aos valores dos parâmetros da equação de Genuchten (1980) das curvas de retenção dos horizontes pedológicos relacionados aos perfis P606 e P607, representativos do Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média.

QUADRO 159 - Parâmetros da equação de Genuchten (1980).

PERFIL
Horizonte: profundidade (cm)
Parâmetros da equação de Van Genuchten
a
m
n
qr
qs
P606
Ap: 0-30
0,025857
0,481663
1,929249
0,053 
0,381 
P606
Bt/Ap: 30-55
0,021425
0,424826
1,738603
0,074 
0,354 
P606
Bt: 55-150+
0,031173
0,370279
1,588004
0,056 
0,393 
P607
Ap: 0-25
0,025421
0,515679
2,064747
0,051 
0,423 
P607
Bt/Ap: 25-50
0,041374
0,425705
1,741266
0,079 
0,457 
P607
Bt: 50-150+
0,03654
0,45235 
1,825983
0,092 
0,443 
.
As Figuras 20 a 25 apresentam as curvas de retenção de água dos horizontes pedológicos relacionados aos perfis P606 e P607, representativos do Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média.


FIGURA 20 - Curva de retenção de água do horizonte Ap (0-30 cm) do
Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média (Perfil P606).


FIGURA 21 - Curva de retenção de água do horizonte Bt/Ap (30-55 cm) do
Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média (Perfil P606)

.
FIGURA 22 - Curva de retenção de água do horizonte Bt (55-150+ cm) do
Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média (Perfil P606)

.
FIGURA 23 - Curva de retenção de água do horizonte Ap (0-25 cm) do
Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média (Perfil P607)


FIGURA 24 - Curva de retenção de água do horizonte Bt/Ap (25-50 cm) do
Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média (Perfil P607).


FIGURA 25 - Curva de retenção de água do horizonte Bt/Ap (50-150+ cm) 
do Podzólico Vermelho  Escuro, textura arenosa/média (Perfil P607).

Os Quadros 160 e 161 apresentam os valores de granulometria, densidade do solo, porosidade total, condutividade hidráulica saturada e de capacidade de água disponível dos horizontes superficiais do Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média.

QUADRO 160 - Parâmetros físicos hídricos do Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média.

P606
Densidade

do Solo

(g/cm3)

Granulometria (%)
Porosidade

total (%)

Conduti.
umidades
CAD
Horizonte:
Hidráulica
(cm3/cm3)
(mm/cm)
Profundidade (cm)
Areia
Silte
Argila
Determinada
Saturada (mm/h)
cc
pmp
0,08 a 15 bar
Ap: 0-30
1,56
84
6
10
38,10
28,98
0,19
0,05
1,4
Bt/Ap: 30-55
1,61
80
7
13
35,38
16,56
0,23
0,07
1,6
Bt: 55-150+
1,49
70
10
20
39,33
18,22
0,23
0,06
1,7

QUADRO 161 - Parâmetros físicos hídricos do Podzólico Vermelho Escuro, textura arenosa/média.

P607
Densidade

do Solo

(g/cm3)

Granulometria (%)
Porosidade

total (%)

Conduti.
umidades
CAD
Horizonte:
Hidráulica
(cm3/cm3)
(mm/cm)
Profundidade (cm)
Areia
Silte
Argila
Determinada
Saturada (mm/h)
cc
pmp
0,08 a 15 bar
Ap: 0-25
1,50
81
7
12
42,30
110,12
0,20
0,05
1,5
Bt/Ap: 25-50
1,50
79
8
13
45,72
133,31
0,24
0,08
1,6
Bt: 50-150+
1,44
69
9
22
44,33
52,16
0,23
0,09
1,4

16.2. Irrigação - Ações Complementares

16.2.1. Treinamento
 As ações previstas para o item irrigação contemplam treinamento intensivo tanto de técnicos, como de produtores e levantamento das reais demandas por obras de infra-estrutura básica e conservação dos solos, obras de engenharia para uso e desfrute coletivo. Tal levantamento e discussões posteriores devem ser encaminhados por técnicos da região, conhecedores dos reais mecanismos locais de produção e comercialização, porém tal discussão somente se dará a bom termo se os Técnicos estiverem bem alicerçado nas diversas áreas de conhecimento e isto somente se consegue através do treinamento e da transferência de tecnologia entre os pares.
 Este processo de discussão regional e treinamento teve início em agosto de 1.998 com a realização de Simpósio Internacional de Agricultura Irrigada, realizado na cidade de Jales. Em janeiro de 1.999, vinte e oito Técnicos do oeste paulista participaram em Ilha Solteira do Curso de Capacitação em Agricultura Irrigada.
 Em agosto de 2.000 terá início o Programa de Capacitação em Agricultura Irrigada da Bacia Hidrográfica do Rio São José dos Dourados, sendo este um programa que objetiva o treinamento de Agentes de Assistência Técnica com a disposição de capacitá-los à entender todas as faces e necessidades de uma agricultura irrigada, centrada na engenharia da irrigação, de modo à torná-la mais rentável e moderna. É um programa de capacitação que mescla características de cursos de informação com os de formação, uma vez que são propostas avaliações de desempenho de equipamentos de irrigação em operação, aulas práticas, novas abordagens e avaliação de conhecimentos, além de exigir o repasse dos conhecimentos adquiridos através do oferecimento de novos cursos tendo como público alvo os agricultores. Serão vinte e cinco edições do curso a serem ministrados por cada um dos Técnicos participantes do curso inicial, em um efeito cascata que visa atender no mínimo quinhentos produtores rurais em 25 cidades da região.
De qualquer maneira, cursos ligados a engenharia de irrigação e manejo de sistemas de irrigação devem ser de duração continuada visando a formação de massa crítica em relação ao tema. Somente com Técnicos bem capacitados será possível dar o salto tecnológico que se espera para um processo integrado de desenvolvimento sócio-econômico.

 16.2.2. Pesquisa Aplicada
O desenvolvimento de uma agricultura irrigada forte e de alto nível deve estar alicerçado em pesquisas regionais e na transferência do conhecimento ligado ao consumo de água para as plantas, através do conhecimento das relações solo-água-planta-atmosfera, onde a palavra-chave chama-se evapotranspiração, ou seja nas mais diferentes culturas, deve-se saber o quando e o quanto irrigar.
Estudos desta natureza já foram iniciados pela UNESP-Ilha Solteira com as culturas de milho, feijão, soja, pupunha, uva e acerola que ainda opera as estações agroclimatológicas automáticas localizadas nos municípios de Ilha Solteira, Marinópolis e Junqueirópolis, compilando e disponibilizando os dados de necessidades de irrigação das culturas. Estes trabalhos são financiados pela FAPESP.
As variáveis climatológicas e o consumo de água pelas culturas passarão a ser melhor representadas e estudas a partir de outras quatro estações agroclimatológicas a serem implantadas pelo Instituto Agronômico de Campinas com recursos do FEHIDRO através do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São José dos Dourados.
Estes equipamentos permitirão subsidiar pesquisas aplicadas com as diferentes culturas. Porém, estudos que levem em conta a interação das plantas com o meio físico, tal como crescimento e distribuição de raízes, desempenho de novos equipamentos de irrigação, uso de tensiometria no controle da irrigação, entre outros, devem ser incentivados.

16.3. Comercialização

16.3.1. Logotipo Identificador
 As ações e transformações regionais ligadas à comercialização são mais lentas e dependem muito de trabalhos de convencimento e amadurecimento. Para isso deverá ser criado o logotipo que identificará a origem dos produtos. Tem-se como sugestão assumir a marca “GRANDES LAGOS” associada com um logotipo a ser discutido e aceito por todos como representativo da região. A visão dos consumidores, ligando as belezas naturais da região a seus produtos, trará inegavelmente uma imagem de qualidade aos mesmos.
A definição e elaboração de projetos concretos requerem um trabalho integrado dos diversos órgãos da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, sem a característica departamentalização de ações, bem como o estabelecimento de “parcerias” com outros agentes envolvidos como Prefeituras Municipais, Universidades, Embrapa, Ensino Agrícola e Organizações da Sociedade Civil.

 16.3.2. Pesquisa e Direcionamento de Mercado
A definição do mercado alvo, bem como a descoberta de novos nichos de mercado é fundamental para o desenvolvimento regional, sendo necessário a montagem de estratégias de comercialização. De fato, estudos conduzidos pelo BNDES (Faveret Filho et al, 1999) mostram que o mercado mundial de frutas frescas cresce rapidamente, mas é muito influenciado por políticas públicas nos principais países importadores, além de ser muito intensa a concorrência. A competitividade internacional parece depender cada vez mais de sistemas eficientes de comercialização, que são resultados de políticas públicas e privadas, combinadas em doses variáveis.
Apesar da tentação que o mercado internacional oferece aos agentes de comercialização, inspirando discussões acaloradas, reconhece-se como correta, a visão externada pelo Prof. Guilherme Dias no Simpósio Internacional de Fruticultura Irrigada (1998), de que a região deve primeiro conquistar e consolidar os mercados regionais próximos, tais como as regiões administrativas de São José do Rio Preto, Bauru, Ribeirão Preto, Campo Grande e Triângulo Mineiro e somente depois, alçar vôos maiores, qual seja, o caminho da exportação.
De fato, reconhece-se que a fruticultura brasileira, para se tornar uma atividade exportadora, carece de uma coordenação de mercado e de políticas públicas que possibilitem a constituição de uma cadeia produtiva que tenha infra-estrutura e mecanismos de comercialização que dêem conta das exigências  dos mercados interno e externo para que realmente possa dar conseqüência à sua potencialidade.
No campo da exportação de frutas frescas, nosso desempenho pode ser considerado pífio perto de outros países, tais como Chile e Israel. Em 1999 foi da ordem de apenas US$ 162,6 milhões, com previsão de crescer 20% no ano de 2.000, podendo chegar a US$195 milhões, resultado da exportação de 514 mil toneladas de frutas (Gazeta Mercantil, 29/03/2000).
De qualquer maneira, a procura por nichos de mercado deve ser de ação imediata e coordenada por uma entidade civil regional para orientação e controle de padrões de qualidade. Um banco de dados com acesso para as entidades civis e governamentais constituídas é de extrema importância e neste sentido, a Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento tem importância fundamental para a efetivação desta ação, uma vez que a estrutura do CODEAGRO pode ser utilizada, como agente centralizador dos dados macro-econômicos.
A divulgação dos padrões de qualidade exigidos pelos diferentes mercados deve ter início imediamente visando firmar posição em relação à consciência da qualidade do produto ofertado.
A estruturação de um “Agromailing”, ou seja, a informação agropecuária digital, proverá os produtores periodicamente de informações sobre mercado futuro, padrões de qualidade, movimentação de safras, entre outros. Atualmente, as EDR’s - CATI estão equipadas com conexão com a Internet e num futuro bastante próximo, imagina-se a conexão de todas as Casas da Agricultura e Prefeituras com essa mídia. A disseminação de provedores de e_mail grátis possibilita a redução de custos na implantação destes sistemas, restando apenas o treinamento dos produtores a esta mídia. 
O acesso aos produtores e/ou Associações/Coperativas/Empresas à Internet permite a obtenção de informações das mais diferentes naturezas, contribuindo para a modernização e tecnificação de suas lavouras.

 16.3.3. Treinamento e Formação de Mão de Obra Qualificada
Trabalhos de treinamento em qualidade da produção, embalagem e conservação pós-colheita, administração rural, empresarial e gerência deverão ser realizados à nível de Técnicos e Produtores, bem como deverão ser incentivada a implantação de células de comercialização coletiva, através da organização em Empresa de Participação Comunitária, Associações, Cooperativas ou fortalecimento das diferentes organizações civis já existentes, sem esquecer do estímulo à criação de agroindústrias com agregação de valor aos produtos básicos.
Esta percepção já chegou à Escola Técnica Estadual “Dr. José Luiz Viana Coutinho” de Jales (Qualificação em Agronegócios - Qualificação Profissional Básica, CEETEPS - ETE, Jales, fevereiro, 2.000, 17p.), que em fevereiro deste ano propôs a criação do curso de “Qualificação em Agronegócios” . Em seu documento básico, a Escola faz um diagnóstico preciso da agricultura regional, apontando os pontos de estragulamento e traz a proposta de investir na formação de recursos humanos dentro da ótica da “tecnologia de processos”, em detrimento à “tecnologia de produtos”.

 16.3.4. Incentivo à Agroindústrias
 Neste item, quando se fala em agroindústria, na verdade trata-se do agronegócio no sentido mais amplo, ou seja, a agregação de valor à produção. A agregação de valor à agricultura é fundamental para o desenvolvimento de uma região e nesse sentido a opção pela fruticultura e a produção de hortaliças certamente é um bom começo para a implantação de agroindústrias que fariam o processamento integral ou mesmo a utilização das tecnologias chamadas de produtos minimamente processados.
 A discussão sobre as vantagens da agregação de valor é dispensável, uma vez que não há controvérsia sobre a sua importância. O próprio Governo Federal, através do Ministério da Agricultura e Abastecimento, reconhece esta importância quando editou a publicação Nova Perspectivas para o Agronegócio (1998).
Dessa maneira, o incentivo a criação de agroindústrias capazes de processar os produtos produzidos na região é fundamental. No entanto, o fomento se dará através de discussões técnicas, que passa obrigatoriamente pelo estudo completo da matriz insumo-produto de várias culturas, visando identificar os produtos que podem apresentar uma maior agregação de valor, sendo que estes deverão receber incentivos na implantação de agroindústrias. Porém, desde já reconhece-se que os projetos devem ter como característica o favorecimento de plantas agroindustriais pequenas e econômicas que podem rapidamente aumentar sua capacidade e/ou sua produção sem afetar muito a empresa como um todo e que podem, inclusive, cada uma especializar-se em certos tipos de produtos, segundo um planejamento central.
 A profissionalização da estrutura gerencial de Cooperativas e Associações de Produtores e a criação de Fóruns técnicos com espaço para discussão de idéias e tecnologias é fundamental neste processo.
 

16.4. Diversificação Agrícola

16.4.1. Identificação de Demanda, Produção de Mudas e Treinamento
 A potencialidade da fruticultura brasileira, especialmente a irrigada, é inquestionável. Porém, os gargalos em cada uma das fases, da produção à comercialização, ainda esperam soluções adequadas, apesar de detectadas há longo tempo. A produção de frutas exige um complexo sistema de plantio, condução, colheita, tratamento pós-colheita, transporte e exposição nos pontos de venda. Todo o sistema tem por objetivo lidar com o seu alto nível de perecibilidade e fragilidade intrínseco.
 Dessa maneira, o apoio à diversificação da fruticultura começa também pelo treinamento e disseminação do conhecimento técnico disponível aos agentes de Assistência Técnica e produtores rurais, fazendo assim a transferência de tecnologia já existente, mas avança na formação de um grande viveiro de produção de mudas que atenderá a demanda dos produtores de toda a região com mudas selecionadas e de qualidade.
 Um programa que prevê a produção em grande escala de mudas de qualidade de diferentes frutíferas, que seriam fornecidas aos produtores, somente pode ser implantado se baseado na identificação da demanda pelo mercado, seja “in natura” ou agroindustrial, identificado na matriz insumo-produto já discutida.
 Sem entrar na complexidade de uma matriz insumo-produto, mas levando-se em conta parâmetros regionais de mercado, alguns os produtos agropecuários foram classificados de acordo com o potencial de curto, médio e longo prazo, considerando disponibilidade de matéria prima para comercialização, tecnologias de produção e organização do setor.
 Dessa maneira, foram identificados como de curto as atividades já instaladas e adaptadas regionalmente, como os cultivos de pupunha, citros, coco, anonáceas, banana, café, hortaliças, mandioca, milho, pescado, produção de sementes de gramíneas, apicultura e outras.
 De médio prazo foram classificadas as atividades já instaladas e adaptadas regionalmente, mas com produção em pequena escala, no caso, o cultivo de abacaxi, limão, tangerina, goiaba, romã, caqui, olerícolas e outras. De longo prazo são consideradas as atividades cujas características são promissoras, no entanto carecem de pesquisa e neste caso, as culturas do fumo, condimentos, ervas medicinais e a produção de uva para vinho.
 O mesmo modelo de treinamento do Programa de Capacitação em Agricultura Irrigada deve ser adotado para a fruticultura irrigada, qual seja a capacitação de Agentes de Assistência Técnica, que numa estratégia de efeito multiplicador atenderia à uma grande massa de agricultores, onde o enfoque principal estará na abordagem de temas ligados a técnicas de cultivo, conservação pós-colheita e comercialização das principais fruteiras presentes na região. Considera-se esta atividade como fundamental para o desenvolvimento da fruticultura da região.

 16.4.2. Pesquisa em Fruticultura Irrigada
 Como resultado da priorização da fruticultura irrigada como motor do desenvolvimento regional, há a necessidade de se produzir incentivo e fomento para pesquisas em técnicas de produção, seleção de variedades adaptadas para as condições de agricultura irrigada e introdução de novas culturas.
 Nesta ação a participação da UNESP, IAC e do Centro Experimental da EMBRAPA de Jales, vinculado ao Centro de Pesquisa em Uva e Vinho de Bento Gonçalves é fundamental, pois estas Instituições têm recursos humanos altamente capacitados para a execução destas atividades de pesquisa.

 16.4.3. Financiamento à Investimentos e Custeio
 O sistema de financiamento da produção tem deixado a desejar há muito tempo. Os recursos são escassos e normalmente não chegam no momento adequado para fazer face as necessidades de custeio, enquanto que os recursos para investimentos na produção apresentam juros incompatíveis com a importância que a agricultura representa para a sociedade como um todo.
 Também o sistema de financiamento de curto prazo se caracteriza pelo risco estar estar exageradamente concentrado no produtor, que dado ao risco, aloca poucos recursos próprios para investimentos. No tocante ao financiamento dos investimentos de longo prazo, o sistema bancário o evita, ficando concentrado no BNDES, enquanto que os bancos privados não se interessam pelo financiamento do custeio, se concentrando então nos bancos oficiais.
 Diante desse quadro, políticas de financiamento dos investimentos e da produção que atendam as necessidades da agricultura devem ser implementadas, onde redistribui o risco na intermediação financeira é pré condição para a recuperação dos níveis de investimentos no setor agrícola. Dias e equipe (Coordenador do Projeto COMIF - Reestruturação do Sistema Financeiro, 2.000)  faz uma proposta de reestrutura do sistema de financiamento da agricultura em que as estratégias a serem adotadas devam contemplar a ampliação do nível de investimento no setor e ao mesmo tempo aumentar substancialmente a capilaridade do sistema de financiamento.
 O Secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo nomeou em 12 de abril de 2.000 (D.O.E. de 13/04/2.000), através da Resolução SAA 07, Grupo de Trabalho para estudos de viabilidade técnica sobre a criação de um programa de financiamento pelo FEAP - Fundo de Expansão da Agropecuária e da Pesca, para a implantação de irrigação em propriedades rurais do Estado.
 Dada a escassez de recursos do FEAP, a sugestão é a de que o financiamento seja para a aquisição de qualquer método ou sistema de irrigação com valores inferiores a R$ 15.000,00 por produtor, para todas as culturas que apresentem viabilidade técnica, atestada por Engenheiro Agrônomo da CATI e projeto técnico e executivo do sistema a ser implantado. Considerando a vocação da fruticultura para as pequenas propriedades, sugere-se dois anos de carência e de três a cinco anos para pagamento (em função da fenologia da cultura a ser implantada).
 Do lado regional, seria interessante que o sistema bancário provesse condições especiais e diferenciadas para que os novos plantios fossem implantados nas áreas de maior potencial para a irrigação, conforme a Folha 07. Com esta prática, o sistema bancário estaria dando sua contribuição na preservação dos recursos naturais.
 

16.5. Agroturismo
 O agroturismo tem se mostrado uma opção de entretenimento, sendo que a própria região já apresenta histórias de sucesso empresarial nesta atividade. Todavia, na implantação incentivada desta atividade deve-se considerar que o meio ambiente deve apresentar um conjunto harmonioso e este projeto prevê a recuperação ambiental e até mesmo a recomposição paisagística das estradas da região.
 Todavia, o incremento na produção de produtos artesanais (doces, geléias, etc), o treinamento, a criação de um calendário de feiras específicas nos municípios e o envolvimento da sociedade civil organizada neste eventos é necessário.
 

16.6. Considerações Adicionais
 Os investimentos têm sido, até os dias de hoje, orientados primordialmente ao financiamento da produção e aquisição de insumos. Tal política tem como conseqüência uma superprodução, desestimulando o produtor. Os investimentos no setor da comercialização e distribuição, garantindo um fluxo desimpedido do produto, pode trazer como conseqüência a produção de produtos que não permitem uma agregação de valores, transferindo para fora a maior parte de sua renda.
 Neste contexto é que o setor agroindustrial, dentro do complexo rural, tem o maior efeito multiplicador da renda e do emprego com maior poder de impacto na produtividade da unidade rural, permitindo concentrar as principais decisões econômicas do quê, quanto, onde e como produzir, unificando os interesses econômicos dos produtores e da agroindústria, evitando o crescimento de um em detrimento do outro.
 Portanto, se torna importante o apoio do Estado no sentido de promover a discussão, coordenando o proposto, reduzindo assim o imediatismo das ações, tão característico do setor agropecuário. De qualquer as soluções para a região devem vir da própria região, ou seja, seus atores (produtores rurais, Técnicos, comerciantes, sociedade civil organizada e Instituições Públicas) devem sentar na mesma mesa, organizar as idéias e definir qual o caminho a ser trilhado. No cenário econômico atual não mais espaço para ações isoladas e parceria passa ser a palavra-chave.
 


 
 
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