5. RECURSOS HÍDRICOS SUPERFICIAIS

Do ponto de vista do gerenciamento dos recursos hídricos, o Estado de São Paulo é subdividido em 22 Unidades de Gerenciamento de Recursos Hídricos e cada UGRHI é gerenciada pelo Comitê da Bacia Hidrográfica que tem entre outras atividades, a função de fazer o acompanhamento do Plano Integrado de Aproveitamento dos Recursos Hídricos da Bacia, promover a educação ambiental, o saneamento básico, o uso racional da água, o controle e a redução das perdas nos sistemas públicos de abastecimento de água, o reflorestamento, a criação de APAs, o controle da poluição dos aquíferos, controle da erosão e a elaboração do macrozoneamento. Palmeira d’Oeste pertence ao Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São José dos Dourados e a Figura 10 ilustra a área de influência e os limites deste Comitê.



FIGURA 10 - Área de influência e algumas informações do CBH-SJD.

A avaliação da disponibilidade hídrica superficial baseou-se no estudo de “Regionalização Hidrológica” do Estado de São Paulo, desenvolvido pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica-DAEE (1988). Para o desenvolvimento desta metodologia, o DAEE utilizou as precipitações anuais de 444 postos pluviométricos, para a elaboração da carta de isoietas médias anuais do Estado, além das séries históricas de descargas mensais observadas em 219 estações fluviométricas e das séries históricas de vazões diárias de 88 postos fluviométricos. Assim, o Estado de São Paulo foi dividido em 21 regiões hidrologicamente homogêneas.
Esta metodologia permite estimar: a vazão média de longo período; a vazão mínima de duração variável de um a seis meses, associada à probabilidade de ocorrência; a curva de permanência de vazões; o volume armazenado intra-anual necessário para atender a uma dada demanda, sujeito a um risco conhecido; e a vazão mínima de sete dias associada a probabilidade de uma dada ocorrência.
Também durante o período seco (12 a 14 de julho de 1999) foi avaliado in-loco a vazão dos córregos considerados estratégicos para este trabalho, bem como a qualidade da água nas microbacias hidrográficas. A Figura 11 ilustra estes locais, enquanto que o Quadro 21 traz os valores das vazões determinadas em campo e os Quadros 22 e 23 trazem os resultados das análises de qualidade da água.

FIGURA 11 - Locais das avaliações das vazões e qualidade da água.

 Os dados apresentados nos Quadros 21 a 23 não somente confirmam a baixa disponibilidade hídrica da região, como atestam problemas com a qualidade da água, notadamente os ligados à presença de ferro, que podem causar danos aos sistemas de irrigação, notadamente os sistemas de irrigação localizada, por obstrução de tubulações e dos orifícios de passagem. Na região existe histórico de projetos condenados pela total obstrução da tubulação.
 A Área de Hidráulica e Irrigação da UNESP - Ilha Solteira tem detectado problemas sérios em relação a qualidade da água dos mananciais da região, estando disponível na Internet homes pages que ilustram a obstrução de tubulações pela presença de ferro (http://www.agr.feis.unesp.br/acagua.htm e http://www.agr.feis.unesp.br/agua.htm).
 De acordo com ZAZUETA (1992), o entupimento por Fe++ e Fe+++ acontece porque a água atua como solvente de vários minerais ricos em Ca, Mg, Fe e Mn. Estes elementos se dissolvem com o passar da água pelas formações minerais e são solubilizados devido a influência da temperatura, pH, potencial de óxido-redução e concentrações relativas de outras substâncias em solução. Quando a água é bombeada, algumas das condições que afetam a solubilidade se combinam de tal forma que produzem precipitados dos materiais, formando partículas que vão se acumulando nos emissores, provocando o entupimento.

QUADRO 21 - Dados de vazões (m3.h-1) levantados nas bacias hidrográficas dos Córregos Sucuri, Bacuri 
                      e Macumã em 12, 13 e 14 de julho de 1999.

Local 
Localidade e Coordenadas
Vazão
Método
A
Afluente do córrego do Sucuri (Sucurizinho): 524.383 E e 7.745.571 N (UTM)*
17,34
Direto
B
Córrego do médio Sucuri: 524.319 E e 7.747.644 N
173,48
Direto
C
Sucuri-antes da confluência com Sucurizinho: 524.599 E e 7.747.018 N
68,04
Direto
D
Afluente do Baixo Sucuri: 522.875 E e 7.748.381 N
32,89
Direto
E
Córrego Baixo Sucuri: 522.877 E e 7.749381 N
289,44
Flutuador
F
Ribeirão Ponte Pensa depois da confluência do córrego do Sucuri: 522.158 E e 7.751.484 N
3411,75
Flutuador
G
Ribeirão Ponte Pensa abaixo da vazão F: 520.275 E e 7.751.041 N
3877,02
Flutuador
H
Córrego Alto Bacuri: 523.108 E e 7.744.129 N
31,59
Direto
I
Córrego Médio Macumã: 519.292 E e 7.747.324 N
178,50
Direto
J
Baixo Macumã abaixo da confluência com Bacuri: 519.300 E e 7.749.406 N
457,99
Flutuador
K
Afluente da nascente do Alto Sucuri: 525.359 E e 7.745.006 N
6,98
Direto
L
Córrego do Baiano (afluente do córrego do Macumã): 518.632 E e 7.744.527 N
23,61
Direto
M
Córrego Médio Bacuri: 521.134 E e 7.746.715 N
136,28
Direto
N
Córrego Alto Macumã: 519.289 E e 7.746.110 N
32,67
Direto
* Zona 22

QUADRO 22 - Resultados das análises das águas coletadas entre 12 e14/07/1999.

LOCAL
Cálcio
Magnésio
Dureza
FerroTotal
Manganês
Cloretos
Sódio
Potássio
mg.litro-1
A
19,2
3,9
63,6
0,5
0,5
3,2
3,2
1,8
B
32,0
6,7
106,8
0,5
0,4
4,1
3,8
2,3
C
40,0
9,2
136,8
0,3
0,1
6,1
3,8
2,7
D
16,0
3,3
53,2
0,1
0,5
2,9
2,9
2,0
E
19,2
4,5
66,0
0,6
0,07
3,2
3,5
2,1
F
18,4
3,8
61,0
1,0
0,9
1,9
4,2
1,9
G
25,6
5,3
85,2
0,8
0,5
2,0
4,0
1,9
H
38,2
8,8
130,7
1,2
0,1
7,2
4,4
2,2
I
34,8
8,3
120,0
0,3
0,01
3,0
4,0
2,1
J
29,6
6,2
98,8
0,1
0,04
2,4
3,2
2,0
K
25,6
6,0
88,0
0,3
0,01
12,0
3,8
4,1
L
20,8
4,3
69,2
1,0
0,05
1,2
3,8
2,5
M
38,4
8,0
128,0
0,6
0,01
3,3
4,1
2,1
N
19,0
7,6
77,9
0,5
0,01
2,9
4,0
2,0

QUADRO 23 - Resultados das análises das águas coletadas entre 12 e14/07/1999.

LOCAL
Alcalinidade

Hidróxida

(mg/l CaCo3)

Alcalinidade

Bicarbonato

(mg/l CaCo3)

Alcalinidade 

Carbonatos

(mg/l CaCo3)

Solidos Dissolvidos

(mg/l)

Sólidos Totais

(mg/l)

pH
Turbidez

(NTU)

CEe

(dS.m-1)

A
70,0
100,0
15,0
332,0
720,0
7,6
6,6
0,147
B
0,0
100,0
0,0
460,0
860,0
7,9
6,3
0,201
C
0,0
100,0
0,0
730,0
1060,0
7,6
4,5
0,238
D
0,0
50,0
0,0
270,0
500,0
7,9
7,8
0,105
E
0,0
50,0
0,0
310,0
620,0
8,2
6,0
0,155
F
0,0
90,0
0,0
285,0
600,0
8,0
14,7
0,154
G
0,0
100,0
0,0
340,0
660,0
8,1
12,6
0,150
H
0,0
120,0
0,0
392,0
820,0
7,9
5,7
0,228
I
0,0
120,0
0,0
390,0
700,0
8,0
3,4
0,165
J
0,0
90,0
0,0
410,0
810,0
7,7
7,8
0,127
K
100,0
100,0
100,0
420,0
690,0
7,5
13,8
0,157
L
0,0
110,0
0,0
330,0
790,0
7,8
12,0
0,130
M
0,0
110,0
0,0
250,0
700,0
7,9
1,6
0,181
N
0,0
100,0
0,0
350,0
900,0
7,9
6,2
0,200

A maior eficiência do uso da água, a possibilidade de obtenção de uma maior produtividade, a utilização de água salina, maior eficiência na aplicação de fertilizantes, limitação do crescimento de plantas daninhas, pequena necessidade de mão-de-obra, não interferência nas práticas culturais e menor requerimento de energia em relação a outros sistemas pressurizados de irrigação, são as principais vantagens dos sistemas de irrigação localizada (NAKAYAMA e BUCKS, 1986), que será a opção na maioria das culturas irrigadas por este projeto.
 De acordo com ZAZUETA (1992), o entupimento dos sistemas de irrigação localizada é um problema freqüente devido a vários fatores, tais como: tamanho dos condutores hidráulicos nos emissores, baixa velocidade da água nas várias partes do sistema e finalmente pela baixa freqüência com que se encontram as fontes de água livre de contaminantes. Considera ainda o problema de entupimento tão freqüente que nas práticas atuais, se admite como indispensável que todo sistema de irrigação localizada inclua uma unidade de filtros e em alguns casos uma unidade de tratamento químico da água.
 O entupimento tem como conseqüência uma redução na uniformidade de aplicação na qual reduz a eficiência de aplicação de água e ainda leva a uma perda de controle sobre o manejo da água, e em casos extremos, inutiliza-se este sistema de irrigação.
 Segundo AGUADO (s.d.), a água natural pode conter uma grande quantidade de impurezas, características do ciclo hidrológico que se tem previamente ocorrido. Nesse ciclo, a evaporação da água para as nuvens constitui de um processo purificador. Na sua caída em forma de chuva, a água inicia um processo de contaminação cujo resultado final dependerá das condições atmosféricas e climáticas da região em que ela cair, das características geológicas do terreno e de sua distribuição como água superficial ou subterrânea. Em contato com os minerais que se encontram na sua passagem, a água vai aumentando o conteúdo de sais dissolvidos. Em vista dos problemas, pode-se distinguir os seguintes grupos de contaminantes aquáticos: materiais em suspensão (areia, silte e argila), sais minerais em dissolução (cálcio, magnésio, ferro, sódio, potássio, cloro, carbonatos, bicarbonatos, sulfatos, nitratos, silicatos, boro, etc), matéria orgânica de origem natural e organismos vivos que constituem a fauna e a flora do meio.
 Nesta região, como demonstraremos com fotos e textos explicativos, se verifica o assoreamento dos corpos d’água e a ausência de terraceamento das terras, com sinais claros de erosão (as Fotos 13, 24, 25 a 30, 31 a 34, 39 a 42, 43 a 48, 56, 60, 61, 62, 68 a 72 ilustras alguns locais com estes problemas). O assoreamento dos corpos d’água, associado com a proliferação desenfreada de Typha angustifolia (taboa) e ação microbacteriana têm causado os problemas de alta concentração de ferro e em alguns casos manganês na água.
 Nesta situação, a implantação de projetos de irrigação localizada deve ser feita de maneira cautelosa e a longo prazo, a recuperação dos mananciais somente será feita através da obrigatoriadade da conservação dos solos, da recomposição das matas ciliares e a diminuição da população de Typha angustifolia, o que pode ser conseguido através da remoção de parte desta vegetação e da construção de barragens com duplo propósito, controle ambiental e armazenamento de água a ser utilizada para irrigação.
 Também foi realizada uma análise hidrológica, sendo que os córregos Bacuri, Sucuri e Macumã, afluentes do Rio Santana da Ponte Pensa, localizam-se na Região Hidrológica U. Para esta região, os valores dos parâmetros a e b equivalem a -4,62 e 0,0096, respectivamente, o que torna a vazão específica média prurianual (Qesp) igual a 8,78 litros/s/km2. Como pode ser notado a vazão específica média plurianual é aproximadamente sete vezes menor do que a dotação de rega estimada para as áreas agricultáveis das bacias hidrográficas dos córregos Bacuri, Sucuri e Macumã, isto é, enquanto a vazão específica média plurianual é da ordem de 0,0878 litros/s/ha, a dotação da rega média (irrigação localizada) é de 0,6 litros/s/ha. Diante desse resultado, nota-se a pouca disponibilidade dos recursos hídricos nas 3 bacias hidrográficas estudadas.
A vazão média de longo período (qm) é o resultado da multiplicação da vazão específica média plurianual pela respectiva área (A) da bacia de contribuição. A vazão mínima de sete dias associada à probabilidade de ocorrência de 10 anos (Q7,10) é a solicitação mais freqüente sobre vazões mínimas. Essa vazão é utilizada como indicador da disponibilidade hídrica natural num curso de água. É obtida através da seguinte equação:
 
 

Q7,10 = 0,75 * Q1,10
     
 
Q1,10
=
X10 * (A + B * d) * qm
   

 em que: Q1,10 é vazão média mínima anual de 1 mês de duração;

                                      X10 é o tempo de retorno;
                                      A e B os parâmetros da equação; 
                                      d são os meses de duração (no caso 1 mês).

No Quadro 24 tem-se os valores das principais vazões utilizadas na avaliação da disponibilidade dos recursos hídricos superficiais da área de estudo.

QUADRO 24 - Parâmetros hidrológicos das bacias hidrográficas.

Bacias Hidrográficas
Área (km2)
qm (m3/s)
Q1,10 (m3/s)
Q7,10 (m3/s)
Córrego do Bacuri
17,91
0,15236
0,0399
0,0299
Córrego do Sucuri
24,09
0,2049
0,0537
0,0402
Córrego do Macumã
29,95
0,2547
0,0667
0,0500

 
 
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