11. PLANO DE MANEJO E CONSERVAÇÃO DOS SOLOS

Serão apresentadas nesse capítulo as diretrizes gerais para projetos de conservação do solo, estabelecidas a partir dos dados do levantamento do meio físico (solos, classes de declive e uso atual) e das interpretações de risco de erosão e da capacidade de uso para redução da degradação das terras. Ressalta-se que não foram avaliados parâmetros sócio-econômicos da região que deverão ser levados em consideração em projetos detalhados, que incluam a definição de práticas de manejo e de controle de erosão para cada microbacia.
As características do meio físico indicam que as Bacias estão situadas em áreas de suscetibilidade à erosão moderado a alto. Embora apresentem predominantemente declives entre 3 e 12% (85% da área total), suave ou suave ondulado, o solo na maior parte das Bacias é o Podzólico Vermelho Escuro textura arenosa/média (93% da área total), que possui alta erodibilidade. A alta erodibilidade, ou seja, a alta susceptibilidade à erosão é função da textura arenosa do horizonte superficial e do gradiente textural entre os horizontes, associando baixa agregação das partículas com redução do fluxo de água no solo em profundidade. Essa situação é confirmada pela presença de erosão laminar e em sulcos em diversos pontos, mesmo em classes de declive de 3 a 6%. 
Por outro lado, o potencial à erosão laminar (Folha 6), determinado através do método descrito anteriormente, é relativamente baixo. Uma vez que as condições do meio físico favorecem o processo erosivo, o baixo risco de erosão atual pode ser explicado pela cobertura com pastagens na maior parte da área. Pastagens bem conduzidas protegem o solo contra a força erosiva das chuvas e das enxurradas, pela cobertura e pelo travamento da superfície do solo propiciado pela parte aérea e pela grande quantidade de raízes. As áreas de maior risco de erosão estão associadas às proximidades de cursos de água ou grotas.
De acordo com a classificação das terras no sistema de capacidade de uso, grande parte da área pertence às subclasses IIIe e IVe, que indicam alto risco de degradação, necessidade de práticas complexas de conservação do solo e sugerem a utilização de cultivos perenes, como pastagens, fruteiras, reflorestamentos. O terraceamento dos solos em nível de microbacia assume grande importância, uma vez que são poucas as propriedades que adotam práticas mecânicas de conservação de solo, sendo que os produtores que as adotam, o fazem de maneira isolada, estanque, ou seja, não proporcionam uma conservação do solo que possa evitar o assoreamento dos mananciais de água.
 

11.1. Diretrizes para Manejo e Conservação do Solo

 11.1.1. Quanto ao uso do solo
Em função da suscetibilidade à erosão e da classificação das terras no sistema de capacidade de uso, recomenda-se o cultivo de plantas perenes na maior parte da área das Bacias, principalmente onde predominam as subclasses classes IIIe e IVe. Culturas anuais poderão ser plantadas nas áreas indicadas como classe IIe e IIes, porém com restrições para sistemas de manejo com pouca cobertura de solo. As classes Va e VIe deverão ser utilizadas com vegetação permanente ou como áreas de preservação permanente.

 11.1.2. Manejo do Solo

11.1.2.1. Cultivos perenes
O manejo das culturas nas Bacias deverá ser conduzido de forma a oferecer a máxima proteção ao solo, através de cobertura vegetal ou morta e do aumento da capacidade de infiltração de água no solo. O solo das áreas onde serão estabelecidos cultivos perenes (fruteiras) deverá ser analisado quanto à fertilidade e presença de camadas compactadas. Se a correção do solo for necessária, não devem ser utilizados implementos que mobilizem a superfície do solo e retirem totalmente a cobertura. Recomenda-se a utilização de escarificadores, a realização das operações na época de menores chuvas (outono/inverno) e a utilização de adubos verdes antes do plantio da cultura escolhida.
Os cultivos perenes fornecem razoável proteção ao solo após seu completo estabelecimento. Logo após o plantio e por um período de tempo de 1 a 5 anos, entretanto, grandes faixas de solo ficam expostas à ação direta das chuvas. Por isso, o manejo da cultura implantada deve ser feito de forma a manter as entrelinhas cobertas. Nos primeiros anos, pode ser cultivada uma planta anual, adubos verdes ou plantas de cobertura. E nos anos seguintes manter o mato controlado ou utilizar adubos verdes.

11.1.2.2. Pastagens
Considera-se que as pastagens funcionem como proteção para o solo contra a erosão, embora não seja essa a realidade que se observa. A falta de manejo adequado dos piquetes determina redução da cobertura do solo e a formação de trilhos, que favorecem o processo erosivo. Um planejamento adequado das áreas que permaneceram com pastagens é necessário. Esse planejamento deve incluir: dimensionamento de piquetes, localização de cochos e bebedouros, controle de invasoras, adubação adequada, controle da compactação do solo.

 11.1.3. Práticas mecânicas de conservação do solo
O sistemas de terraceamento recomendado, em função do tipo de solo, é o sistema com terraços em desnível. Isso implica na utilização de canais escoadouros naturais ou construídos especialmente para esse fim. O risco de erosão, com a concentração de grande quantidade de água em solos podzólicos como o destas Bacias, é bastante alto. A opção pela utilização desse sistema de terraceamento requer projeto específico e manutenção constante, fato este que muita vezes os tornam inviáveis. Nestas condições, optou-se pela construção de terraços em nível de base larga, com ampliação da área de armazenamento. O sistema de terraceamento deve, ainda, ser estabelecido sem respeitar limites de propriedades.

11.1.3. 1. Locação dos terraços
A locação dos terraços na área de estudo, foi realizada com auxílio do programa TERRAÇO 2.0Ó (Universidade Federal de Viçosa. Departamento de Engenharia Agrícola), desenvolvido no Departamento de Engenharia Agrícola da Universidade Federal de Viçosa.
No exemplo de locação de terraços agrícolas a ser apresentado a seguir, será mostrada a locação de terraços em uma amostra circular da área de estudo. Nesse caso, como o programa utilizado não permite a locação de terraços em desnível, com canal escoadouro, será exemplificada a locação de terraços em nível, especificamente para a cultura de citros. Assume-se também que o sistema de preparo do solo não consistirá de revolvimento do mesmo para o plantio, bem como após a implantação da cultura, a entrelinha será mantida com cobertura vegetal, controlada com auxílio de roçadeira e/ou aplicação de herbicidas.
O programa permite a locação em planta do sistema de terraceamento em nível, a partir de informações sobre declividade, altimetria, e parâmetros relacionados ao tipo de preparo do solo, tipo de cultura e precipitação. Especificamente para a área de estudo, utilizou-se os seguintes parâmetros: 

ØAltimetria e Declividade
Para locação dos terraços, o programa baseia-se nas imagens de altimetria e declividade da área. A imagem de altimetria, foi obtida a partir da interpolação das curvas de nível no software ILWIS 2.23, (The Integrated Land and Water Information System) que por sua vez gerou o Modelo Digital de Elevação (MDE) (Figura 13), contendo a distribuição contínua da altimetria na área de estudo. A partir do MDE, obteve-se o mapa de classes de declive conforme apresentado na Figura 14.


 Figura 13 - Modelo Digital de Elevação (MDE).


FIGURA 14 - Classes de declives.

Ø Precipitação
Para caracterização das chuvas intensas, o programa baseia-se na Equação de Intensidade, Duração e Freqüência da precipitação, representada por:

onde:   im = intensidade máxima média de precipitação, mm.h-1;
           T = período de retorno, anos;
            t = duração da precipitação, min;
            K, a, b, c = parâmetros relativos à localidade.

Os parâmetros considerados para o município de Palmeira d’Oeste, foram os sugeridos por LOMBARDI NETO (texto em preparação) que são:
T = 10 anos; K = 1999,979; a = 0,137; b = 19,24; c = 0,895
 

Ø Espaçamento entre terraços
A metodologia para cálculo do espaçamento entre terraços adotada, foi a proposta por LOMBARDI NETO et al (1994), na qual o usuário deve fornecer as seguintes informações:
- Tipo de cultura e seus respectivos fatores de uso do solo;
- Grupo de solo quanto à resistência à erosão;
- Grupo de preparo do solo e manejo dos restos culturais.

No exemplo de locação de terraço proposto neste estudo adotou-se os parâmetros apresentados no Quadro 40 e com base nestas informações, procedeu-se a locação dos terraços em nível, cujo resultado é apresentado na Figura 15 e nos Quadros 41 e 42.
Para determinar os valores de EV (espaçamento vertical), considerou-se um manejo da cultura que mantêm cobertura permanente nas entrelinhas, com controle de invasoras feito com roçadeira ou herbicidas. A utilização de equipamentos que revolvem o solo (grades, por exemplo) implicam na redução do espaçamento apresentado. O tipo de terraço é de base.

QUADRO 40 - Parâmetros para definição do espaçamento de terraços.

Parâmetro
Descrição
Cultura - Citros Citros
Grupo de Solo - Grupo C

 

Podzólico Vermelho Amarelo textura média/arenosa

Solos de baixa resistência à erosão

Grupo de Preparo do Solo - Grupo 5 Preparo primário: Não tem

Preparo secundário: Plantio sem revolvimento do solo; manejo de ervas daninhas com roçadeira ou herbicida
na entrelinha 


Figura 15 - Distribuição dos terraços em nível na área circular estudada.

QUADRO 41 - Espaçamento vertical e horizontal de terraços para 
culturas de ciclo curto (ex. Abacaxi)

Declive
Solo: Latossolo
 
Solo: Podzólico
(%)
Manejo 1
Manejo 2
 
Manejo 1
Manejo 2
 
EV
EH
EV
EH
 
EV
EH
EV
EH
3
0,94
31
1,29
43
 
0,77
26
1,06
35
4
1,11
28
1,53
38
 
0,91
23
1,25
31
5
1,26
25
1,74
35
 
1,03
21
1,42
28
6
1,40
23
1,93
32
 
1,15
19
1,58
26
7
1,54
22
2,11
30
 
1,26
18
1,73
25
8
1,66
21
2,28
29
 
1,36
17
1,87
23
9
1,78
20
2,44
27
 
1,45
16
2,00
22
10
1,89
19
2,60
26
 
1,55
15
2,13
21
 
2,00
18
2,75
25
 
1,63
15
2,25
20
12
2,10
18
2,89
24
 
1,72
14
2,36
20
Manejo 1: Preparo primário com arado de disco ou aiveca, preparo secundário com grade niveladora, restos culturais incorporados ou queimados.
Manejo 2: Preparo primário com arado escarificador, preparo secundário com grade niveladora, restos culturais parcialmente incorporados
EH= Espaçamento Horizontal (metros); EV= Espaçamento Vertical (metros).
QUADRO 42 - Espaçamento vertical e horizontal de terraços para culturas de ciclo longo (ex. Citros).
Declive
Solo: Latossolo
 
Solo: Podzólico
(%)
Manejo 1
Manejo 2
 
Manejo 1
Manejo 2
 
EV
EH
EV
EH
 
EV
EH
EV
EH
3
1,06
35
1,41
47
 
0,87
29
1,15
38
4
1,25
31
1,67
42
 
1,02
26
1,36
34
5
1,42
28
1,90
38
 
1,16
23
1,55
31
6
1,58
26
2,11
35
 
1,29
22
1,72
29
7
1,73
25
2,30
33
 
1,41
20
1,89
27
8
1,87
23
2,49
31
 
1,53
19
2,04
25
9
2,00
22
2,67
30
 
1,64
18
2,18
24
10
2,13
21
2,83
28
 
1,74
17
2,32
23
11
2,25
20
3,00
27
 
1,84
17
2,45
22
12
2,36
20
3,15
26
 
1,93
16
2,58
21
Manejo 1: Preparo primário com arado de disco ou aiveca, preparo secundário com grade niveladora, restos culturais incorporados ou queimados.           Manejo 2: Sem preparo primário, plantio sem revolvimento do solo, uso de rolo-faca e/ou 
          herbicida na entrelinha.

11.1.3. 2. Custos
 A análise do custo das operações mecânicas para promover o terraceamento dos solos em nível de microbacia se baseaou na área em estudo representada pelas Figuras13,14e15.
 Esta área considerada representativa de toda a região do projeto possui uma área de 538 hectares, com uma declividade média de 4,3%, comprimento total de terraços de 152.649 metros e comprimento médio de terraços por hectare igual a 280 metros.
 Considerando que os terraços devem ser de base larga e tomando como base o trabalho executado por um trator de 145 cv de potência (tracionando um terraceador), com rendimento operacional de 280 metros por hora, o custo total da conservação mecanizada do solo na área em estudo foi estimado em R$ 21.700,00, portanto, nas condições padrão, em média R$ 40,33 por hectare.
 

 11.1.4. Mata ciliar
Sugere-se a recomposição da mata ciliar nas áreas de preservação permanente, ao longo dos cursos de água, nas grotas e nas áreas classificadas como classe VIe. A maior parte das áreas de alta susceptibilidade à erosão estão localizadas próximas aos córregos. A presença de uma vegetação bem desenvolvida deverá funcionar não apenas como um filtro para garantir a qualidade da água, mas também como proteção das margens e das barrancas dos córregos contra erosão.
Para a recomposição da mata ciliar foi necessária a elaboração de um projeto específico determinando áreas prioritárias, espécies, sistema de implantação e manutenção.

 11.1.5. Estradas
A concentração de águas nas estradas representam grande potencial de erosão, contribuindo significativamente para a formação de sulcos e ravinamentos, além do assoreamento de eventuais bacias de contenção (ver Foto 25). De acordo com as normas técnicas e, também com a atual Lei de uso e manejo do solo agrícola, as propriedades devem receber as águas das estradas e não podem lançar águas nas estradas. O leito das estradas devem ser adequados para condução da água até os terraços ou bacias de retenção.
 


 
 
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