| 4. AGROCLIMATOLOGIA
4.1. Evapotranspiração
e Balanço Hídrico
A área estudada insere-se
numa região fisiográfica que não apresenta acidentes
geográficos de grande monta, isto é, a geomorfologia regional
do Planalto Ocidental do Estado de São Paulo é constituída,
em sua totalidade, na área do projeto, de relevos de colinas amplas
e suaves onduladas.
Um projeto coletivo
de irrigação deve ter todo o seu meio físico estudado
e é o que se segue nos próximos itens, onde a Figura 2 representa
todas as etapas cumpridas para se chegar a forma final do levantamento
do meio físico constante neste documento.
FIGURA 2 – Fluxograma dos
estudos envolvidos no projeto.
Um dos grandes problemas
enfrentados no dimensionamento de projetos hidroagrícolas é
a estimativa consistente das reais necessidades hídricas das culturas.
Isto se deve pela ausência no país de uma rede de estações
agroclimatológicas que possa fornecer dados confiáveis e
com série histórica aceitável. A utilização
de dados inconsistentes pode resultar em projetos e/ou estruturas sub ou
superestimadas, podendo até mesmo comprometer a viabilidade do empreendimento.
O custo de implantação e de operação de sistemas
de irrigação estão diretamente relacionados às
estimativas da evapotranspiração das culturas irrigadas.
Regiões e/ou
estados onde a agricultura irrigada representa uma parcela significativa
da economia local têm nas estações agroclimatológicas
um importante instrumento não apenas para planejamento de novos
projetos e/ou obras, mas também na manutenção e operação
dos sistemas de irrigação. Apenas como exemplo, pode-se verificar
que o Estado da California - Estados Unidos, mantém um programa
- o CIMIS (California Irrigation Management Information System) - com 98
estações agroclimatológicas automáticas, que
juntas recebem anualmente 72.000 pedidos de informações dos
mais vários tipos de usuários. São ao todo 2.900 agricultores,
profissionais, empresas e instituições cadastradas neste
programa (CIMIS, 1998 e ECHING, 1998).
A região noroeste
do Estado de São Paulo, onde se desenvolve este estudo, é
uma área onde ocorre os maiores índices de evapotranspiração
do Estado de São Paulo, o que a torna grande consumidora dos recursos
hídricos quando as culturas agrícolas são irrigadas
e ainda faz com os equipamentos tenham maiores custos de investimentos,
uma vez que deverão ter condições de atender demandas
elevadas. Segundo Hernandez (1998) e Hernandez et al (1995), estes altos
valores de evapotranspiração fazem com que a região
se apresente como de grande aptidão para o desenvolvimento de uma
agricultura irrigada de alto nível, uma vez que o inverno não
é rigoroso.
Apesar da inexistência,
na área de influência direta do projeto, de uma rede agrometeorológica
de alta densidade, essa não apresenta acidentes geográficos
de grande monta, isto é, a geomorfologia regional do Planalto Ocidental
do Estado de São Paulo é constituída, em sua totalidade,
na área do projeto, de relevos de colinas amplas e suaves onduladas.
Esse fato por si só, faz com que a taxa de evapotranspiração
das culturas apesar de elevadas, não devem apresentar variações
significativas na área de interesse do projeto de irrigação.
Porém, é certo que existem variações climáticas,
principalmente em se considerando a variabilidade espacial e temporal das
precipitações pluviais entre os municípios. Isso faz
com que a estimativa do valor da evapotranspiração das culturas
a serem irrigadas, não devam sofrer grandes variações
em função da distribuição espacial das áreas
irrigadas.
São três as
estações agroclimatológicas disponíveis na
região. Essas estações estão posicionadas em
Ilha Solteira, Jales e Votuporanga. Das três localidades, Ilha Solteira
é a que possui uma base climática mais abrangente, porém,
é também a mais distante de Palmeira d’Oeste. Mesmo assim,
tendo em vista a qualidade e a quantidade de dados disponíveis,
é de Ilha Solteira que sairá a base para as estimativas da
evapotranspiração, enquanto que as precipitações
utilizadas são as medidas pelo DAEE a partir do posto pluviométrico
de Palmeira D’Oeste (B7-042 - coordenadas geográficas 20°25’
de latitude sul e 50°46’ de longitude oeste e altitude igual a 430
metros).
A estação
agroclimatológica de Ilha Solteira está instalada na Área
Experimental de Agricultura Irrigada da Fazenda de Ensino e Pesquisa da
Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira - UNESP, com coordenadas geográfica
20° 22’ de Latitude Sul e 51° 22’ de Longitude Oeste e com
altitude média de 335 m. O clima da região, segundo a classificação
de Köppen, é do tipo Aw, definido como tropical úmido
com estação chuvosa no verão e seca no inverno, apresentando
temperatura média anual de 24,5°C, precipitação
média anual de 1.232 mm e uma umidade relativa média anual
de 64,8% (Hernandez et al, 1995).
Os dados apresentados
por Hernandez et al (1995) compilam médias climáticas entre
os anos de 1967 a 1993. Esta foi a publicação base para os
dados climáticos, uma vez que apresenta a estimativa da evapotranspiração
(demanda hídrica das culturas) pelo método de Penman-FAO,
aceito mundialmente como o que melhor estima as perdas de água pelas
plantas. Os demais dados (1994-98) foram obtidos junto à Área
de Hidráulica e Irrigação - UNESP - Ilha Solteira
(http://www.agr.feis.unesp.br/clima.htm).
As estações
localizadas nas cidades de Jales e Votuporanga disponibilizam apenas os
dados de precipitação, temperatura máxima e temperatura
mínima, o que limita o trabalho de estimativas precisas de evapotranspiração.
Estas são operadas pela EMBRAPA e IAC, respectivamente, e os dados
compilados e divulgados pelo CIIAGRO (Centro Integrado de Informações
Agrometeorológicas) - IAC.
O Quadro 18 traz
as médias e totais dos dados meteorológicos de Ilha Solteira
no período compreendido de 1967 a 1998. No mesmo quadro pode-se
ver as evapotranspiração de referência durante o ano
de 1994 considerado crítico, em função das baixas
precipitações (inverno seco), altas temperaturas e baixa
umidade relativa do ar. Neste ano, chegou à 180 dias sem chuvas,
causando grandes transtornos à toda a comunidade, fato que veio
a se repetir em 1999. As Figuras 3 e 4 ilustram estes dados.
O Quadro 18 e Figura
3 permitem algumas inferências sobre quais seriam os meses críticos
para o suprimento hídrico às culturas, levando-se em conta
as altas taxas da evapotranspiração de referência (ETo)
e também a distribuição das chuvas. De qualquer maneira,
o balanço hídrico, onde se calcula o efeito do total de chuvas
sobre o armazenamento de água no solo, mostra qual realmente o mês
crítico. Também um estudo do efeito dos veranicos na produtividade
das principais culturas é estudado neste projeto.
Todavia, é
na Figura 4 que se tem a comprovação da região como
potencial para o desenvolvimento de uma agricultura irrigada diversificada
e de alto nível. Verifica-se que a insolação (número
de horas de brilho de sol) se mantém alta ao longo de todos os meses
do ano e com baixos desvios em relação à média.
QUADRO 18 - Médias mensais e
totais entre 1967 e 1998 em Ilha Solteira - SP.
|
MESES
|
T.M. *
|
U.R. **
|
Insolação
#
|
Ventos
|
ECA ##
|
Chuvas
|
ETo-Penman (mm/dia)§
|
| |
°C
|
%
|
horas/dia
|
km/dia
|
mm/dia
|
mm
|
1967- 98
|
1994
|
|
Janeiro
|
26,5
|
69,8
|
6,8
|
145,2
|
5,6
|
211,2
|
5,6
|
5,6
|
|
Fevereiro
|
26,8
|
69,2
|
7,0
|
137,4
|
5,9
|
165,4
|
5,5
|
6,3
|
|
Março
|
26,6
|
68,4
|
7,3
|
131,5
|
5,5
|
133,8
|
5,2
|
5,5
|
|
Abril
|
24,9
|
66,0
|
8,1
|
140,2
|
5,3
|
91,1
|
4,9
|
4,1
|
|
Maio
|
22,6
|
65,1
|
7,8
|
141,0
|
4,8
|
66,1
|
4,2
|
4,8
|
|
Junho
|
21,4
|
64,3
|
7,6
|
148,8
|
4,5
|
34,2
|
3,9
|
4,4
|
|
Julho
|
21,5
|
58,9
|
8,2
|
168,8
|
5,4
|
19,3
|
4,3
|
5,9
|
|
Agosto
|
23,2
|
53,0
|
7,9
|
176,2
|
6,6
|
23,7
|
5,2
|
8,2
|
|
Setembro
|
24,3
|
61,1
|
6,7
|
182,8
|
6,6
|
69,2
|
5,3
|
9,8
|
|
Outubro
|
25,7
|
60,2
|
7,5
|
161,2
|
6,7
|
118,8
|
5,9
|
8,1
|
|
Novembro
|
26,1
|
67,2
|
7,6
|
161,7
|
6,7
|
141,8
|
5,8
|
7,8
|
|
Dezembro
|
26,4
|
68,6
|
6,3
|
153,0
|
6,1
|
181,0
|
5,5
|
7,2
|
|
Média ou Totais
|
24,7
|
64,3
|
7,4
|
154,0
|
5,8
|
1255,6
|
5,1
|
6,5
|
* Temperatura média; ** Umidade
Relativa; #Número de horas de brilho de sol;
## Evaporação
do Tanque Classe A; §Evapotranspiração
de referência estimada por Penman-FAO

FIGURA 3 - Médias
das precipitações mensais ocorridas entre 1967 e 1998 e evapotranspiração
média entre 1967-98 e a crítica ocorrida em 1994,estimada
pelo método de
Penman-FAO. (Fonte: UNESP-Ilha Solteira)
FIGURA 4 - Médias
de alguns parâmetros climáticos no período entre 1967
e 1998 em Ilha Solteira
-SP.(Fonte:UNESP - Ilha Solteira).
Em relação
aos ventos, segundo a classificação da FAO (Doorenbos e Kassan,
1988), estes podem ser considerados fracos ao longo dos meses do ano, sendo
que somente os meses de agosto e setembro apresentam valores superiores
à 175 km/dia, ou 2,0 m/s. No caso de ensaios de desempenho de equipamentos
de irrigação por aspersão, são aceitos pelas
principais normas (ASAE, ABNT, ISO) valores máximos da velocidade
do vento de até 1 m/s, para a validação do ensaio.
O método de
Thornthwaite e Matter (1955) foi o utilizado na realização
do balanço hídrico regional, calculado pelo software desenvolvido
por Sentelhas et al (1999) e o Quadro 19 traz as precipitações
históricas de Palmeira d’Oeste, bem como os resultados do balanço
de água no solo, enquanto que a Figura 5 ilustra os resultados.
QUADRO 19 - Balanço
hídrico histórico de Palmeira d’Oeste, com CAD de 100 mm.
|
Meses
|
P
|
ETP*
|
ETP**
|
P-ETP
|
NEG-AC
|
ARM
|
ALT
|
ETR
|
DEF
|
EXC
|
| |
mm
|
mm
|
mm
|
mm
|
|
mm
|
mm
|
mm
|
mm
|
mm
|
|
Jan
|
231,4
|
5,6
|
172,30
|
59,1
|
0,0
|
100,00
|
56,46
|
172,3
|
0,0
|
2,6
|
|
Fev
|
181,1
|
5,5
|
155,12
|
26,0
|
0,0
|
100,00
|
0,00
|
155,1
|
0,0
|
26,0
|
|
Mar
|
169,3
|
5,2
|
162,67
|
6,6
|
0,0
|
100,00
|
0,00
|
162,7
|
0,0
|
6,6
|
|
Abr
|
88,6
|
4,9
|
147,65
|
-59,1
|
-59,1
|
55,40
|
-44,60
|
133,2
|
14,5
|
0,0
|
|
Mai
|
66,9
|
4,2
|
131,05
|
-64,1
|
-123,2
|
29,17
|
-26,23
|
93,1
|
37,9
|
0,0
|
|
Jun
|
35,2
|
3,9
|
117,27
|
-82,1
|
-205,3
|
12,84
|
-16,33
|
51,5
|
65,7
|
0,0
|
|
Jul
|
21,2
|
4,3
|
132,17
|
-111,0
|
-316,2
|
4,23
|
-8,61
|
29,8
|
102,4
|
0,0
|
|
Ago
|
15,0
|
5,2
|
160,97
|
-146,0
|
-462,2
|
0,98
|
-3,25
|
18,2
|
142,7
|
0,0
|
|
Set
|
70,6
|
5,3
|
158,13
|
-87,5
|
-549,7
|
0,41
|
-0,57
|
71,2
|
87,0
|
0,0
|
|
Out
|
117,2
|
5,9
|
184,03
|
-66,8
|
-616,6
|
0,21
|
-0,20
|
117,4
|
66,6
|
0,0
|
|
Nov
|
157,6
|
5,8
|
175,25
|
-17,7
|
-634,2
|
0,18
|
-0,03
|
157,6
|
17,6
|
0,0
|
|
Dez
|
213,3
|
5,5
|
169,94
|
43,4
|
-83,1
|
43,54
|
43,36
|
169,9
|
0,0
|
0,0
|
|
TOTAIS
|
1367,4
|
61,4
|
1866,55
|
-499,2
|
-
|
447
|
0,00
|
1332,1
|
534,4
|
35,3
|
|
MÉDIAS
|
114,0
|
-
|
155,55
|
-41,6
|
-
|
37,2
|
-
|
111,0
|
44,5
|
2,9
|
* Evapotranspiração de referência
calculada pelo método de Penman-FAO. Valor diário
** Valor mensal
A interpretação
do balanço hídrico confirma agosto como o mês crítico
para o suprimento hídrico das culturas e os resultados obtidos mostram
claramente a deficiência hídrica em pelo menos oito meses
do ano, o que limitaria a expressão da potencialidade produtiva
das culturas. Dessa maneira, um desenvolvimento regional baseado na agricultura
teria limitações de grande monta, pois não há
condições climáticas para a estabilidade da produção,
ou seja, para a oferta em quantidade e qualidade de produtos de origem
vegetal que garantiriam um abastecimento do mercado com regularidade.
Assim, a irrigação
na região de Palmeira d’Oeste é considerada compensadora
ou complementar (quando a irrigação é utilizada para
corrigir a má distribuição das chuvas em regiões
úmidas ou sub-úmidas).
Seguindo uma distribuição
normal os valores de evapotranspiração de referência
(ETo), calculados pelo método de Penman-FAO, durante os 12 meses
do ano tem como estimativa da média o valor de 5,1 mm.dia-1. A evapotranspiração
de projeto – Etpr - é calculada, com base na probabilidade de ocorrência
desse valor. Para esse projeto estudou-se a probabilidade de 75% de ocorrência.
Esse valor de probabilidade
de ocorrência é o mais utilizado nos grandes projetos de irrigação.
Isso significa, a grosso modo, que em pelo menos 1 de cada 4 anos o valor
da evapotranspiração de projeto, seja maior ou igual ao valor
médio estimado. Nesse caso o valor da evapotranspiração
foi calculada pela seguinte equação:

onde: ETpr é a evapotranspiração de referência
de projeto igual a 5,54 mm/dia;
z representa o valor do índice para a probabilidade de 75%
de ocorrência,
isto é, 0,68;
s, o desvio
padrão da distribuição que é igual a 0,6529;
ETMEDIA é
a ETo anual média e igual a 5,1 mm/dia.


FIGURA 5 - Balanço
hídrico de Palmeira d’Oeste com identificação dos
déficits e excessos de água
no solo.
4.2. Determinação da vazão
téorica fictícia contínua (dotação de
rega)
No Brasil há uma
diferenciação de tarifa de energia elétrica para irrigação
com redução em até 10 vezes nos custos relativos ao
componente consumo (kWatt.h-1), desde que, a operação
das motobombas do conjunto de irrigação ocorram fora do horário
de “ponta”, portanto, o período contínuo para determinação
dessa vazão no país é de 21 horas.
A vazão fictícia
contínua ou dotação de rega, ou seja a quantidade
de água necessária à planta só depende do clima
e da espécie vegetal. Porém, ao se aplicar a água
em uma lavoura deve-se contabilizar as perdas envolvidas no processo de
condução, distribuição, aplicação
e no manejo da água de irrigação.
Os climas sub-úmidos
se caracterizam por alta variação na distribuição
da precipitação e valor de radiação solar ao
longo do ano, sendo, no entanto, possível identificar períodos
de menor pluviosidade, períodos estes onde a demanda de água
para as culturas pode ser desfavorável, o que implica na necessidade
de água suplementar através de irrigação.
Para a região de
interesse, o período entre os meses de março e agosto, caracteriza-se
por um período onde as culturas estarão sujeitas a déficit
hídrico, podendo comprometer parcial ou totalmente a produção,
principalmente se esse período coincidir com os estádios
de floração e formação de frutos e/ou grãos.
A relação
entre a evapotranspiração real de uma cultura e a evapotranspiração
de referência ETo, é denominada de coeficiente de cultura
(Kc) e a multiplicação do coeficiente de cultura pela evapotranspiração
de referência fornece a evapotranspiração máxima
da cultura (ETm).
A evapotranspiração
máxima da cultura para um período do ano, onde o déficit
hídrico é caracterizado, determina em uma primeira aproximação
a necessidade de água para as plantas, a ser reposta por irrigação.
Assim, a vazão teórica contínua ou dotação
de rega para o projeto foi estimada pela equação:
onde:
q21é
a vazão teórica contínua em l/s/ha, para período
de 21 horas/dia;
ETpr, a evapotranspiração de projeto (probabilidade de ocorrência
de 75%) igual a 5,54
mm/dia;
Kc é o coeficiente de cultura médio anual (Dorenboos e Kassam,
1988) igual a 0,7 e
0,8,respectivamente, para culturas perenes e anuais;
EFc é a eficiência de condução equivalente a
0,95;
EFi é a eficiência do método de irrigação
com valores de 0,9 e 0,81, respectivamente,
para os métodos de irrigação localizada e aspersão
mecanizada.
Isso posto, o valor da dotação
de rega para este projeto será de 0,6 l/s/ha para irrigação
localizada de culturas perenes e de 0,762 l/s/ha, para irrigação
por aspersão mecanizada de culturas anuais.
|